Nos últimos dias, estive refletindo bastante sobre uma frase que li em algum lugar e dizia algo como:

O fundo do poço é apenas um conceito criado para que, assumindo que estamos no mais profundo nível de nossa dificuldade, possamos ter a ilusória esperança de que não pode piorar a partir daquele ponto.

(Espero que um dia eu encontre a frase correta e o nome do autor para atualizar aqui)

O quão difícil pode ser traduzir reflexões em um diálogo?

Durante meses, tenho passado por uma quantidade enorme de reflexões que não consegui transformar em artigos. Porém, em vários níveis, a vida sempre dá um jeito de sacudir um pouco a poeira, e essa reflexão em especial me fez querer muito voltar a escrever para o blog.

Tudo começou quando eu estava assistindo a um episódio de um seriado que falava de um período muito parecido com o que estamos enfrentando. É incrível como as histórias parecem se repetir em ciclos: se alteram as variáveis, tecnologias evoluem, crenças nascem e morrem, o conhecimento se transforma… Mas algo sempre vem e causa mudanças significativas naquilo que a gente conhecia como sociedade e estilo de vida. Por mais que o nosso senso crítico (ou nossa frustração) também nos lembre de que muita coisa parece que nunca chegará a mudar de fato.

Dado este fato, também é perceptível o nosso comportamento diante dessas “sacudidas” que a vida nos dá. E as “ondas de mudança” ou “fases de transição” sempre nos causam muito temor, afetando bastante a forma como lidamos com estas. No momento em que surge algo a que precisamos nos adaptar, já estamos ansiosos para um futuro onde podemos dizer que “o pior já passou”, e assim, focamos tanto em desejar esse alívio que, às vezes, esquecemos do que é necessário para chegar a ele.

Além disso, somos uma espécie que tenta encaixar ideias que nos causam temor em caixinhas, para que tenhamos, pelo menos, a impressão de que conhecemos seus limites e prevemos seus movimentos.

E é aí que a frase sobre o fundo do poço me chamou a atenção.

Pois, de fato, desejamos que exista um fundo do poço, e tentamos caracterizá-lo de todas as formas para dar a ele um certo limite. Dívidas, desemprego, doenças, vícios, solidão… Buscamos uma definição capaz de o fazer parecer possível de controlar.

Tentamos sempre assemelhar aquilo que nos amedronta a algo que já conhecemos, numa necessidade vigorosa de pensar que assim como uma situação anterior, o que nos assusta agora vai passar também. Independente das consequências terríveis, encontramos alívio apenas em alegar que não fomos extintos e está tudo “bem”, apesar de tudo. Quantas vezes ouvimos pessoas negando seus muitos traumas em frases do tipo: “eu passei por isso na infância e não me afetou em nada”. E isto ocorre pois buscamos alternativas que pareçam medir o tamanho do problema, pois encarar que o desconhecido é imensurável e imprevisível o faz parecer grande demais.

E não suportamos conviver com a possibilidade de não saber o quanto podemos cair.

E nós temos tanto medo que, às vezes, parece mais razoável causar uma enorme destruição apenas para se sentir mais no controle do que admitir que há momentos em que as opções são poucas.

Esse medo de se sentir impotente também nos leva a entrar em negação sobre o problema. “Vamos seguir a vida como sempre, uma hora tudo volta ao normal”, repetimos, como se o problema fosse deixar de existir se a gente ignorar o bastante, sem que nada novo seja feito.

É um pouco difícil aceitar que “seguir em frente” pode significar apenas fazer aquele pouco que está ao seu alcance, aquilo que parece que não fará efeito algum. É muito difícil lembrar da diferença que você fez quando, mesmo achando que já não tinha nada, ainda assim fez algo, se doou de algum modo. Pode ser que ninguém tenha visto nada disso, nem mesmo você. Mas a diferença está lá, e estará lá no próximo ciclo, nos fazendo questionar “será que esse problema é menor ou eu estou mais preparado?” ou até mesmo “será que está tão pior assim ou eu que estou exausto?”, e isso ocorre porque nem sempre a forma que podemos reagir ao problema está relacionada à dimensão dele.

Como sempre gosto de citar, o tamanho do esforço não mede exatamente o resultado ou a dimensão do impacto. Por exemplo, o hoje simples ato de tomar banho nos permitiu evoluir e sobreviver a varíola pelo mundo, assim como o complexo senso de coletividade faz a população do Japão ser tão resiliente aos terremotos neste local. Um instante pode causar mudanças que não ocorreram em anos, assim como um grande evento pode perder relevância e ser esquecido. Não é mensurável. Assim como o fundo do poço ou o topo do mundo. Sempre é possível ir além, seja melhor ou pior.

Portanto, em vez de se perder tentando encontrar alguma evidência que nos dê suporte para tentar limitar ou negar a realidade, podemos usar uma outra perspectiva das mesmas evidências para nos perguntar: “o que foi feito para melhorar? O que poderia ter sido melhor? O que faltou?”, pois os problemas continuarão vindo, imensuráveis e desconhecidos, e eles chamam muito mais atenção quando os colocamos embaixo do tapete.

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