Vimos nos artigos anteriores alguns critérios básicos que você pode usar como parâmetro para ser sócio ou não de empresas na bolsa de valores. Também é muito importante sair de empresas ruins quando ela deixa de ter tais critérios. Hoje vou te mostrar algumas maneiras de sair de empresas que eram boas e ficaram ruins.

Atenção: Esse artigo não é indicação de compra e venda de ações. Todos os nomes das empresas foram omitidos e todos os dados foram retirados gratuitamente do portal Pense Rico.

Já falei em textos anteriores a importância de uma empresa ter lucro consistente, dívida equilibrada e boa margem operacional (clique aqui para a parte I e aqui para a parte II). Também é muito importante conhecer os critérios corretos de saída de uma empresa, muita gente deixa de ser sócio (vende suas ações) simplesmente porque a cotação caiu ou subiu. Isso é um erro que Charile Munger já atacou:

O dinheiro não está na operação de compra e venda. Está na espera.

Infelizmente, este é o critério que muita gente usa para sair de empresas: ficam em desespero quando a cotação cai, vendendo tudo no fundo ou ficam eufóricos porque a cotação caiu e “vão se dar bem” na venda.

Um dos critérios que você pode utilizar para vender suas ações é verificar apenas se a empresa continua preenchendo as razões que você se tornou sócio dela. Por exemplo: você entrou em uma empresa porque ela tinha lucro consistente e margem alta. Porém, durante alguns anos (4 ou 5), você verificou que a empresa apresentou prejuízos seguidos, margens negativas e dívida crescente. É um grande sinal de saída da empresa.

Note que boas empresas costumam continuar boas, e empresas ruins tendem a continuar ruins. Essa não é uma regra, mas é o que o histórico mostra. Nada impede que empresas lucrativas dêem prejuízo e empresas falidas consigam se reerguer (conhecido como turnaround no jargão da bolsa de valores).

Você deve estar se perguntando: devo ficar tanto tempo assim em empresas que ficam ruins?

Sim. Explico os porquês.

Primeiro, o ideal é que você seja sócio das mais diversas empresas na bolsa. Alguns dizem que não é bom ter mais de 2% do seu patrimônio em dinheiro em uma empresa. Se aquela empresa quebrar e as ações forem a R$0 (zero), você perdeu apenas 2% do seu dinheiro. Haverá várias outras boas para compensar essa perda. Isso não significa que você deverá sair vendendo ações de uma empresa agora porque tem 5% do patrimônio nela. O balanceamento da sua carteira de ações se faz na compra mês a mês jamais na venda. Entender isso é crucial para não deixar dinheiro na mão de corretoras e governo, além de preservar muito mais seu patrimônio no longo prazo.

Segundo, piorar é diferente de ficar ruim. Toda empresa tem períodos de maior crescimento e períodos de retração. Ter lucro menor em um trimestre ou até de um ano para o outro não significa que uma empresa ficou ruim. Muito cuidado com isso, sair de empresas boas apenas porque apresentaram um resultado ruim pode ser muito mais danoso ao seu patrimônio no longo prazo do que ficar em empresas ruins (num cenário bem diversificado, claro). Veja esse exemplo abaixo:

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Exemplo de uma curva de lucro dos últimos 9 anos de uma empresa na bolsa.

A empresa acima apresentou 7 anos de lucros crescentes e está há apenas 2 com lucro menor. Acompanhando os releases anuais e trimestrais da empresa, você notará que ela está retendo dinheiro e diminuindo a margem para continuar competitiva no seu setor. Isso é perfeitamente normal. Lembre-se que você deve estar bem diversificado para evitar pânico infundado nessas ocasiões. Outras boas empresas da sua carteira vão “compensar” essa queda nos lucros. Agora veja este outro exemplo:

Screenshot from 2020-02-13 09-48-16.png
Exemplo da curva de lucros de uma empresa listada na bolsa.

O ano de 2019 marca o quarto ano consecutivo de prejuízo. Podemos interpretar que essa empresa, provavelmente, não está gerando valor para o sócio nesses últimos anos. Cabe a você decidir se vende todas suas ações dela ou mantém. Se você estiver bem diversificado essa empresa vai significar uma porcentagem muito baixa do seu patrimônio, 1% por exemplo. Sabendo disso, muitos hoje em dia são a favor de não vender as ações, mesmo que a empresa fique ruim, mas manter as ações que tem e não compra mais. Aí é decisão particular de cada um.

Além disso, a venda é um processo mais doloroso do que a compra. Você paga corretagem, impostos, spread, recolhe Imposto de Renda, gera DARF (caso seja acima de R$20.000,00 no mês), fica com dinheiro parado na conta da corretora esperando a próxima “oportunidade”, e ainda tem que declarar a operação no Imposto de Renda no ano seguinte.

É um saco.

O único caso que você deve vender imediatamente as suas ações é quando a empresa anunciar que deseja fazer uma OPA (Oferta Pública de Aquisição). Isso quer dizer que a empresa não deseja mais ter ações na bolsa de valores e irá recomprar todas elas dos acionistas minoritários por um determinado preço. É um processo mais burocrático que pode envolver empresas terceiras para definir o preço da compra.

Se isso acontecer com alguma de suas empresas, o mais indicado é vender as ações imediatamente a preço de mercado (respeitando o limite do IR mensal de R$20.000,00) no Home Broker da sua corretora, coloque em algum investimento com alta liquidez, incremente aos poucos com o dinheiro com seus aportes mensais e invista em empresas de valor. Só de anunciar uma OPA, que precisa ser aprovada em assembleia, a empresa comunica que não quer acionista minoritário. E ficar com ações de uma empresa após uma OPA, é só dor de cabeça e complicação na sua vida. Venda-as imediatamente a qualquer preço.

Já passei por uma OPA há alguns anos, o melhor que pude fazer foi vender tudo e passar o dinheiro para ativos de valor.

As palavras-chave quando você pensa em vender ações são calma e bom-senso. Você não precisa acertar a “grande oportunidade” na subida pra ficar rico e nem sair no primeiro sinal de lucros menores no trimestre com medo de perder todo o dinheiro. Se você está bem diversificado sendo sócio de várias boas empresas, não há motivo de pânico em qualquer sinal de piora. Se a empresa for boa, ela tende a continuar boa no longo prazo.

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