A mentalidade da grande maioria das pessoas que colocam seu dinheiro na bolsa de valores é tratar as ações como “papéis” a serem negociados, como um meio de ganhar dinheiro através da compra mais barata e da venda mais cara. Eu não gosto muito deste pensamento porque corrói a verdadeira filosofia de investir na bolsa: ser sócio de empresas.

Quando você acessa o Home Broker (sistema que permite a compra e venda de ações) da sua corretora e vê a enorme lista de tickers (código de negociação da empresa, exemplos: PETR, BBDC, GOLL e ITUB), ali estão pequenas fatias de empresas que você poderá adquirir pelo preço ofertado. Assim como em empresas de capital fechado (aquelas não são listadas na bolsa), ao adquirir um pedaço dela você vira sócio. E com isso recebe lucros (dividendos) e tem poder de voto em assembleias, além de ver seu patrimônio (equity) em evolução ao longo dos anos, caso a empresa seja boa.

Curiosidade: Uma vantagem de investir em empresas de capital aberto no Brasil é que a Justiça não irá atrás de você se a empresa falir e houver uma série de dívidas a serem pagas. Isso é garantido pela Lei das Sociedades Anônimas.

É bastante comum que empresas de capital aberto tenham apenas uma parte das suas ações negociadas na bolsa, pois os controladores e sócios majoritários podem não querer perder o controle da empresa. A porcentagem de ações em circulação em relação ao total de ações da empresa é chamado de free float.

Se eu crio uma empresa e abro seu capital na B3, eu posso definir que o total de ações dela é igual a 100 e sou detentor de 85 ações, virando assim o sócio majoritário. As 15 restantes são negociadas livremente no mercado. Isso quer dizer que a minha empresa tem free float de 15%. Normalmente, empresas tem free float na faixa entre 25% e 35%, mas há algumas com free float de 93% na B3. As que tem free float muito baixo (10% a 15%) são muito propensas a decisões impostas pelos majoritários que nem sempre podem ser vantajosas para os minoritários.

Qual a diferença de Ações com final 3 e com final 4?

Essa pergunta é bastante comum para o investidor iniciante e também há uma série de mitos rondando a explicação delas.

Certa vez escutei uma história, que não sei se é verídica, que as empresas brasileiras lá na década de 60 estavam bastante receosas em abrir capital na bolsa, pois os majoritários não queriam perder o controle de suas empresas para qualquer pessoa que adquirisse as ações. Então foi criado uma ação chamada “Preferencial” na Lei das S/As, com o final 4 e também abreviadas para PN, que não permite que o dententor tenha o  poder de voto em assembleias. Só que isso não faz sentido, você é dono de uma parte da empresa e não tem poder de decisão sobre ela. Para tentar amenizar esse problema, a Lei permite que as ações preferencias tenham uma vantagem entre as seguintes:

Art. 17. As preferências ou vantagens das ações preferenciais podem consistir:

I – em prioridade na distribuição de dividendo, fixo ou mínimo;

II – em prioridade no reembolso do capital, com prêmio ou sem ele; ou

III – na acumulação das preferências e vantagens de que tratam os incisos I e II.

O primeiro item fala sobre a preferência em receber dividendos, é aqui que está o maior mito das ações preferenciais: muita gente acha que, obrigatoriamente, elas distribuem mais dividendos. De fato, isso acontece em algumas empresas, mas a diferença de dividendos é refletida na diferença de preço entre a ação preferencial e ordinária (com final 3). Se a preferencial paga mais dividendos, ela será mais cara de ser adquirida, ficando uma coisa pela outra.

O segundo item diz respeito ao fechamento da empresa, as pessoas com ações PN podem receber o dinheiro de volta mais rapidamente. Os acionistas minoritários já são os últimos da fila a receber qualquer dinheiro em caso de liquidação da empresa, não espere receber uma bolada caso isso aconteça. Esse item é, na minha opinião, inútil. Vejo que o melhor a se fazer seria sair fora de uma empresa ruim o mais rápido possível.

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Acionistas do maior banco privado do país (Fonte: Meus Dividendos)

Veja na imagem acima que os principais acionistas da empresa (representados pela Itaúsa e o Fundo Iupar) detêm apenas ações Ordinárias, as ações PN ficam com o povão da bolsa (Outros), sem direito a voto e de decisão.

Já as ações “Ordinárias”, aquelas com final 3 e abreviadas para ON, é o mesmo tipo de ação dos sócios majoritários e controladores. Algumas empresas mais antigas na bolsa costumam ter os dois tipos em negociação. Mas se você prestar atenção nas empresas que fizeram IPO recentemente (ofertaram ações na bolsa pela primeira vez) vai notar que todas elas oferecem apenas ações ON. Isso é sinal de boa governança da empresa, que ela, teoricamente, valoriza o sócio minoritário e executa uma série de práticas de transparência e auditoria nos seus balanços.

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Acionistas de uma empresa de venda de roupas no varejo (Fonte: Meus Dividendos)

Veja na imagem acima que todos os acionistas da empresa têm o mesmo tipo de ação, todos estão iguais no poder de decisão e voto. Isso é um sinal de boa governança da empresa.

Donos de ações ON também têm direito a maior tag along. Isso significa que, se a empresa for vendida para um novo controlador, o comprador deve fazer uma oferta pública para comprar as ações dos minoritários. Quem possui ações ON têm direito a, pelo menos, 80% de tag along. Já os donos de PN podem não ter direito algum, dependendo do segmento de listagem da empresa.

Se o comprador da empresa adquiriu ações dos majoritários por R$100,00, isso significa que ele deverá ofertar a compra de ações dos minoritários detentores de ações ON em, pelo menos, R$80,00, cabendo a cada acionista decidir se vende ou não. É mais um mecanismo de proteção para os sócios, empresas do segmento “Novo Mercado” na B3 devem oferecer 100% de tag along.

Ao ter ações ON significa que terei que viajar para assembleias!?

Não, mas você será convidado caso necessário. Como você será portador de uma parte muito pequena da empresa, uns 0,0000023%, o seu voto terá pouca diferença. Apenas grandes investidores, como Luiz Barsi e representante de Fundos de Investimento, é quem terminam tendo poder de voto.

Entretanto, saiba que já houve alguns reveses em empresas que os sócios majoritários e controladores tentaram passar por cima dos minoritários. Estes terminaram se organizando e confrontaram os majoritários, revertendo decisões que seriam prejudiciais a eles. Isso só foi possível porque os sócios minoritários eram detentores de ações ON.

Mais uma vez: isso não significa que você irá perder seu precioso tempo de trabalho, estudo e família indo votar em assembleias. A ideia é ficar tranquilo sabendo que você tem o mesmo tipo de ação que os criadores da empresa.

A filosofia de investimentos que pratico (a Buy & Hold) preconiza que devemos ter a mentalidade de sócio quando compramos ações. Não estamos apenas fazendo um link entre nosso CPF e um CNPJ no sistema da B3, estamos colocando o nosso dinheiro em um negócio que acreditamos que irá gerar valor para a sociedade no futuro e queremos fazer parte disso. Considerar pedaços des empresas como “papéis” é um conceito muito raso e que não deveria fazer parte do seu método de investimentos.

E só pra deixar bem claro: Sócio é ON.

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