Já passamos da metade do mês de Setembro e depois de pensar bastante se eu devia, resolvi comentar um pouquinho sobre o Setembro Amarelo. Acho muito importantes as iniciativas em saúde que buscam disseminar informação e planos de ação sobre saúde mental, saúde física (outubro rosa, novembro azul…) e todas as campanhas voltadas para “desestigmatizar” e conscientizar sobre essas pautas que precisam de atenção e serviço. Como em tudo na vida, sempre há pessoas que transformam uma parcela de uma ação incrível num show de horrores.

No início desse mês, eu estava assistindo uma série no serviço de Streaming que gosto, quando me deparei com uma cena no mínimo crítica. Uma das personagens, de classe social muito alta e caricaturalmente esnobe e desrespeitosa com qualquer pessoa “abaixo” dela na pirâmide da riqueza, após ser cruel e discriminatória por diversas vezes com os outros personagens sem muitos recursos financeiros, se engaja em organizar um evento de caridade e faz questão de enfatizar em sua fala o quanto é gratificante apoiar e ajudar os que mais precisam. Não, a personagem não estava em redenção e mudando o seu jeito arrogante.

Ela estava imersa num estado muito comum que eu chamo de ilusão de se enxergar como uma pessoa boa por fazer o que considera um ato de bondade, mas apenas por enxergar “quem mais precisa” como um conjunto “coisificado”, e não como um grupo de indivíduos.

Quando eu me dei conta dessa cena, que um amigo meu certamente comentaria “crítica social f*da” se tivesse ao meu lado, achei um pouco de graça com um humor muito cáustico e imediatamente pensei no Setembro Amarelo e em todas as pessoas que repetem as clássicas frases que não devemos falar para alguém que está com depressão, mas SEMPRE tem um cidadão que faz questão de tentar ignorarresolver uma situação por falácia, negação ou indução, tentando deslegitimar (como na frase do título), invalidar (“mas você parece tão feliz”) ou fingir que não é real (“que nada, isso é só uma fase, se movimente”).

Depois disso, vi um monte de gente comentando sobre as pessoas que passam o ano inteiro sendo um desserviço para o combate ao suicídio, mas em Setembro se tornam os cavaleiros da militância em prol da saúde mental.

Eu sei, às vezes o que rola é que algumas dessas pessoas não têm muito entendimento sobre o assunto e não sabem o que é a doença e como lidar com as pessoas que sofrem com isso. Acontece. Mas não é dessa galera que estou falando. A estes, recomendo leituras e a busca pelo máximo de informação possível. Eu sei que é difícil saber o que fazer e não ter medos, receios, dúvidas e a sensação de que qualquer passo em falso pode ser algo muito grande, mas como sempre digo, informação é o melhor remédio para isso.

A incoerência está em você ser uma das pessoas que falei alguns parágrafos atrás, que aconselham a pessoa se exercitar, sorrir, deixar para lá, não reclamar “de barriga cheia” e tudo mais, reclamam da negatividade, usam “depressivo” como xingamento, mas em Setembro desejam se sentir bons e altruístas compartilhando o número do CVV (inclusive, é 188 o número).

É melhor não compartilhar? De jeito nenhum. Mesmo que não venha de uma série de boas ações, a atitude ainda pode alcançar alguém que precisa.

Mas a melhor campanha que você pode fazer por saúde mental começa em não piorar a situação de ninguém. Já ouviu aquela de que muito ajuda quem não atrapalha? Pois é, ajuda demais.

Dito isto, se o desejo de não restringir a ajuda só a um mês existir e você precisar de orientações, recomendo -> este artigo <- do Dr. Drauzio Varella.

A depressão é uma doença como qualquer outra, que requer tratamento adequado, atenção, apoio, paciência e encorajamento. Não é motivo de vergonha, não é opcional, não é parâmetro para avaliar alguém e nem muito menos desprezar.

Se você pode oferecer a alguém um pouquinho do necessário para a melhora, saiba que faz muita diferença. Sempre valerá a pena se esforçar por isso.

 

 

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