É… talvez a ideia de tentar fazer piada colocando um gato na imagem do post não tenha sido das melhores. Vou deixar assim mesmo, apesar de ser um humor bem melancólico pontuar que nós não temos 7 vidas para ficarmos em paz “descartando” partes significativas de quem somos.

Um amigo meu postou a frase do título no Twitter e ela me acertou em cheio.

Matamos versões de nós o tempo todo. Nós estamos em constante mudança, por mais resistentes ao novo que possamos ser. Nenhum de nós é uma escultura em mármore com recursos limitados para muitas variações. Somos apresentados a uma variedade enorme de hábitos, culturas, estilos e gostos durante a vida e comumente oscilamos entre eles. Nos identificamos e deixamos de nos identificar a todo momento com parte das coisas de que desfrutamos. E com pessoas também.

Sendo apresentados a tudo isso, somos apresentados também a nós mesmos, várias vezes. Sempre tenho a sensação de que uma vida inteira não é suficiente para a gente se conhecer bem o bastante.

E quantas dessas versões de nós vivem seus ciclos de chegada e partida sem que as forcemos para fora desejando que ficassem? Não sendo possível expulsar-nos de nós mesmos, trancamos esses pedaços de quem somos em um lugar profundo e escondido de nós, ignorando descaradamente os pedidos por liberdade, deixando-os morrer à míngua porque, em algum momento, nos convencemos de que não poderíamos permitir que florescessem.

Daí, a gente vive eternamente nessa projeção futura de felicidade. Nunca estamos realmente plenos. Nossas expectativas estão todas nas culminâncias, como se nos esquecêssemos de que a vida continua e que ela dura muito mais. Que a rotina dura muito mais. Não nos colocamos completamente no presente com uma perspectiva de futuro. Vivemos no piloto automático aguardando momentos que duram minutos, horas ou poucos dias. Nos casamos pensando muito mais na celebração do que no convívio diário. Estudamos pensando na formatura. Nos formamos pensando em parar de estudar. Contamos os segundos por vários dias até eventos, festas e comemorações. Eventos esses que são efêmeros demais para sustentar nossa felicidade.

Como seria se libertássemos aqueles pedacinhos de nós que enclausuramos, os fortalecendo, nos permitindo aproveitar um pouco mais do dia-a-dia? Tendo ápices de alegria em momentos especiais, mas nunca depositando tudo nesses passageiros instantes. Nos removeríamos do posto de criatura exclusivamente expectante e passaríamos a “agarrar o dia” um dia após o outro? Reduziríamos o desespero do remorso pois encontraríamos a graça na simplicidade de um momento que não seja de culminância? Perceberíamos as variações de intensidade, mas sem a paradoxal urgência de viver tudo como se fosse o último momento, apenas porque desperdiçamos demais e quando nos damos conta queremos abraçar o mundo todo de uma vez?

Será que vale mesmo a pena deixar tudo isso no canto para satisfazer algo insignificante como uma opinião alheia ou uma expectativa de alguém que não irá lidar com a sua vida por você?

Quantas versões de nós já morreram por abandono? Quantas ainda deixaremos morrer?

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