Há algumas semanas o COPOM (Comitê de Política Monetária) baixou a taxa básica de juros, a SELIC, para 6%. O menor nível desde a apuração da série história, há 30 anos. Mas o que causou essa redução depois de tanto tempo em 6,5%? E mais, qual é o impacto que isso tem na sua vida?

Recentemente, fiz uma postagem no nosso Instagram comentando rapidamente as consequências desse corte nos juros. Hoje vou aprofundar um pouco mais no assunto. Note que o COPOM sinalizou que poderá baixar mais ainda a SELIC no decorrer deste ano, então esse artigo será bem útil no futuro.

O ponto mais importante para você entender sobre essa queda da taxa Selic é saber que a economia é um ciclo. Ela passa períodos de queda (crises) e de crescimento. Isso não é apenas no Brasil, em qualquer país, seja desenvolvido ou emergente, isso também acontece. Veja o gráfico do histórico da Selic abaixo:

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Histórico da Selic de Agosto/09 até Agosto/19 (Fonte: Banco Central)

Veja que em períodos de crise, a Selic tende a aumentar para tentar frear a inflação através da diminuição do consumo. Isso pode ser visto nos anos de 2009 a 2011, reflexo da crise dos subprimes nos Estados Unidos em 2008, e também entre 2013 e 2016, a época da crise brasileira. Assim, empréstimos começam a ficar muito mais caros, enquanto guardar dinheiro começa a ficar mais atraente. Então as pessoas costumam deixar o dinheiro guardado ao invés de gastá-lo.

E quem sabe investir prefere que seu dinheiro fique rendendo em aplicações com baixo risco. O resultado: o preço dos imóveis começa a baixar, a venda de carros diminui, pessoas passam a viajar menos, empresas começam a produzir menos, contratar menos e por aí vai.

Se você, como eu, começou a investir na época da Selic a 11%, está achando muito estranho esse valor atual muito baixo. Até há alguns anos, era muito fácil conseguir investimentos em Renda Fixa de 17% ao ano, enquanto hoje não passa de 8%. Isso quer dizer que era melhor investir lá em 2015?

Talvez. Jamais esqueça da força que a inflação tem de corroer o seu dinheiro, além do grande período de volatilidade causado pela incerteza política e econômica na época. Se era possível ter rendimentos de 17% ao ano, a inflação encostou em 11%. Hoje a Selic é de 6% e a inflação é de 3,78%.

Os juros reais caíram, é verdade. A Renda Fixa não é mais tão atraente quanto antigamente, mas isso não é uma coisa ruim! Isso mostra que a inflação, a maior inimiga de qualquer economia está sob controle.

A queda da Selic sinaliza que a atividade econômica ainda está muito abaixo da esperada pelo governo.

Por que a Selic está caindo?

A atividade econômica fraca, isto é, pouco consumo, pouca produção industrial e pouca geração de empregos permitiu que o COPOM diminuísse a taxa básica de juros para tentar girar a economia novamente.

Com a Selic mais baixa, as pessoas ficam mais encorajadas a fazer empréstimos para comprar carros, imóveis, viajar, abrir o próprio negócio, etc. Alguns bancos públicos já começaram a baixar juros do cheque especial e do crédito pessoal, os maiores bancos privados também devem seguir essa onda em breve.

Mas isso acontece porque o governo é bonzinho e está preocupado com você? Não!

Lembre-se que, teoricamente, a única maneira de um governo conseguir dinheiro é através dos impostos. Quando os impostos não bastam, ele tem que recorrer a empréstimos (Tesouro Direto, no caso do Brasil). Quando há pouco consumo, há pouco imposto. Pouco imposto, resulta em pouco dinheiro pro governo e pouco investimento no país. Então, ele terá que recorrer a mais empréstimos, aumentando os juros para atrair os investidores e, consequentemente, aumentando a dívida.

Portanto, uma imagem de governo ruim.

E já que a maior carga tributária do Brasil é sobre o consumo e não sobre a renda, é interessante para o governo que você sempre consuma mais.

Curiosidade: Enquanto você paga, no máximo, 27,5% de imposto sobre a sua renda (Pessoa Física), você paga 40% sobre a energia elétrica e quase 50% sobre a gasolina do seu carro.

Liberar saque do FGTS, assim como essa queda da Selic, tem o objetivo colocar mais dinheiro rodando no país. À cada “passada de mão” do dinheiro, o governo pega o que é dele.

Então saiba que, a cada queda da Selic, significa que o governo quer que você gaste mais e invista menos.

Como ficam meus investimentos?

Se você investiu, assim como eu, na época dos 1% de juros ao mês na Renda Fixa, saiba que esse período acabou. E não deve voltar nem tão cedo.

Em época de Selic alta, todo mundo sai correndo da Bolsa de Valores e volta pra Renda Fixa, derrubando o preço das Ações. O rendimento alto e risco extremamente baixo é um grande atrativo para os investidores. Já o movimento contrário acontece quando há uma queda na Selic. As pessoas começam a aceitar o risco da Bolsa em busca de ganhos maiores, portanto as Ações das empresas começam a subir.

Nós estamos acostumados com bons rendimentos até mesmo no Tesouro Direto. Porém, alguns ficaram viciados achando que sempre iriam obter retornos em torno de 12% ao ano por lá. Em países desenvolvidos, retornos assim só são possíveis na Bolsa de Valores. Investimento em Renda Fixa nos Estados Unidos, por exemplo, não passa de 2% ao ano.

Enquanto no Japão, um país que tem uma dívida de 255% do próprio PIB, os juros são negativos. (Fonte: Trading Economics). Manter os juros negativos é uma tentativa de diminuir a dívida.

Se você for, como eu, investidor defensivo (aquele que busca mais segurança e menor risco, no lugar de grandes rentabilidades), conseguir retornos anuais médios entre 8% e 10% vai te garantir uma pequena fortuna depois de 20 a 25 anos de investimento, contanto que você continue se dedicando no seu trabalho, aumentando seu salário e aportes mensais.

Para conseguir tais rendimentos, será necessário se adaptar à cada realidade. Por isso é muito importante ter uma carteira de investimentos diversificada e preparada para ser pouco volátil até em um cenário extremo. Uma carteira composta de Tesouro Direto, Títulos Privados e Ações já garante uma excelente segurança e uma boa rentabilidade até em cenários econômicos desfavoráveis, você apenas irá equilibrar a carteira caso alguma crise ou grande euforia aconteça. Não precisa sair investindo loucamente em Debêntures, CRI/CRA, bitcoin, minério de ferro, barril de petróleo, saca de café ou trigo, esqueça isso. Também evite sair migrando de investimento em investimento, você só está deixando mais dinheiro na mão das corretoras e do governo.

Veja que o investidor inteligente sempre deverá estar preparado para momentos de grandes crises e de crescimento. Em momento de crise, a tendência é que a Selic e inflação aumentem, resultando em maior rentabilidade em títulos de Renda Fixa e queda nas Ações. Enquanto cenários de perspectiva de crescimento, haverá baixa Selic e inflação, enquanto as Ações estarão em alta.

A queda da Selic vai continuar ocorrendo até que o Brasil volte a ter níveis de consumo aceitáveis. Lembre-se que é um ciclo, quando há muito consumo, a inflação tende a subir, resultando em uma alta dos juros. É questão de tempo (alguns anos) para a Selic voltar a subir.

Preparação e adaptação, esse deveria ser o lema dos investidores de verdade.

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