Eu estava assistindo uma série que gosto muito e me deparei com uma fala marcante de uma personagem: “há pessoas que lidam com a dor a devolvendo”.

Esse é um texto sobre autopunição, sobre punição como forma de disciplina e sobre a diferença entre castigo e consequência. E sempre trazendo o lembrete: ninguém resiste ao afeto.

Eu tenho uma listinha com todas as reflexões que faço e quero fazer. Esse texto estava dividido em dois tópicos nessa listinha, mas resolvi juntar ambos e inserir um terceiro.

Convido-os a percorrer essa reflexão junto comigo:

1. Bater é educar?

Eu não sou mãe e não pretendo ser. Mas essa reflexão não é sobre como eu acho que você deve criar seus filhos.

É sobre tudo que eu posso pensar quando viro meu olhar para uma criança (um humano, como eu, em uma fase diferente de desenvolvimento). Causar medo ou culpa talvez não seja o melhor caminho para criar uma relação entre o “certo e errado” que se deseja. Uma criança orientada a obedecer cegamente visando não ser punida, certamente não terá uma visão segura sobre as decisões que ela deverá tomar para si mesma.

Uma criança que é apresentada às consequências de suas atitudes sentirá o peso de suas ações e refletirá sobre ele, e isso é muito intenso para um cérebro em desenvolvimento, portanto estabelece uma forma de tomar decisões visando um resultado, e não evitar uma punição secundária. E não estou falando apenas de bater. Ameaças, castigos nada relacionados à atitude, gritos, destratos… São esses os temores que queremos apresentar como o que segue uma falha de uma criança? Elas vão crescer e esses “pormenores” serão apenas parte do rombo emocional, não mais uma consequência a temer.

Sempre me questionei sobre o método “Super Nanny”, também. Premiar alguém por fazer sua obrigação é realmente interessante? Um cantinho da disciplina realmente gera disciplina? Um cérebro tão complexo como o humano ficará bem ao receber uma educação que mais parece um adestramento? Ainda mais quando não se trata de reforço positivo para um extra, e sim para algo que deveria ser encarado como básico.

É o famoso “parabéns por fazer o mínimo”, e isso cria uma legião de pessoas com intenções distantes do resultado de suas próprias ações, esperando compensações e fugindo de efeitos negativos em vez de fazer o que acreditam ser bom e evitar o que acham ruim em sua essência.

2. Castigo x Consequência

Já parou para pensar no quanto a gente costuma sentir prazer em ver o outro punido por seus erros, enquanto ao mesmo tempo queremos benevolência com os nossos?

Dizemos “Sou humano, passível de erros”, enquanto também dizemos “você vai pagar por tudo que me fez!”. Onde está o equilíbrio nisso?

Punir tem muito mais a ver com a expressão da frustração de quem pune, que descarrega o seu sentimento em forma de punição, sem visar mais do que “descontar” a sua raiva, mas esperando que o punido aprenda apenas por ser o seu desejo.

E essa descarga de ódio nada tem a ver com as consequências.

Uma pessoa que comete um crime, por exemplo, tem como consequência o seu afastamento do convívio em sociedade. O sofrimento por isso é secundário, “consequente da consequência”.

Uma criança que apanha, recebe sofrimento direto, como o castigo. Como ela deve entender a razão de não repetir tal ato que levou a dor? Por afetar ela e as pessoas ao seu redor ou para não apanhar?

3. Autopunição

E aqui, voltamos para a frase do início. “Algumas pessoas lidam com a dor a devolvendo”, ou algo assim. Elas podem devolver em forma de punição ao outro por tê-lo frustrado.

Podendo entender a si mesmas como quem causou a frustração, devolvendo então em forma de autopunição.

Usarei o mesmo paralelo que a personagem usou (não citando nada além para evitar spoilers): além dessas pessoas que devolvem a dor, há aquelas que passam pela dor visando o bem e um resultado positivo. É importante negociarmos com nós mesmos para sermos essa segunda pessoa.

Procrastinou? Magoou alguém? Errou de qualquer modo? Ok, respire fundo, enfrente a dor da consequência e lembre do que ficará de lição. Não adianta se autoflagelar e se tratar como incapaz de fazer melhor em outro momento. Você é capaz sim.

Ultimamente eu ando me policiando para não me xingar. Antes eu errava e pensava “eu sou muito burra”. Agora eu estou mais amável comigo mesma: “Eu sou inteligente, mas às vezes é cada escolha errada né?”.

Finalmente, o recado que eu gostaria de deixar com esses argumentos é: ensinar e aprender, mesmo que às vezes seja doloroso e árduo, com algumas pitadas de choro e angústia, sempre serão melhor que punir com ódio e ira e, com isso, cercear a potencial evolução que podemos tirar de um erro.

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