Eu fui embora da cidade em que eu morava. Precisei começar muitas coisas do início novamente, sendo uma delas a psicoterapia. Eu já estava há uns dois anos com a profissional anterior e iniciar com uma nova me trouxe a mesma sensação de quando comecei o processo.

Sentada na sala de espera, eu pensava no que aconteceria em alguns minutos. Se eu ia me sentir confortável, ouvida, compreendida e apoiada. Que reações ela esboçaria diante do que eu tinha para dizer.

Ensaiei algo mais para mim mesma do que para ela, onde eu seria convidada a me apresentar e não saberia exatamente o que dizer.

Eu até poderia tentar falar um pouco sobre quem eu sou, mas como só temos uma hora isso seria muito superficial. Você poderia conviver a vida inteira comigo e ainda não saberia o bastante sobre mim. Eu mesma ainda estou me conhecendo. Eu diria.

No mesmo instante, tento definir a prioridade dos principais tópicos da minha vida. Conto nas mãos os tópicos que me abalam. Penso “como eu reclamo de barriga cheia”. Mas por que eu não me sinto assim quando encontro as consequências dessas poucas coisas me angustiando?

Me convenço de que apesar de poucas, as dores são legítimas e precisam ser aliviadas.

A psicóloga me convida a entrar, e eu me levanto pensando no que eu devia falar. E aí, sou lembrada de que esses profissionais têm seus próprios meios de puxar algo de nós.

E que expurgo!

Ainda sobra muito, mas a gente vai limpando uma seção por vez.

Uma sessão por vez.

Ela parece tão amável, e eu me pergunto que conclusões ela tirou quando me viu. Uma camisa de gato meio dark, um sidecut no cabelo, poucos sinais de vaidade. Talvez eu devesse já falar sobre isso e tentar me aceitar de verdade em vez de fazer eu mesma os julgamentos que eu temo.

Ela ainda muito amável, pergunta meu nome, minha rotina, meus gostos… e sem que eu perceba eu engasgo um pouco falando sobre uma tristeza.

E, às vezes, para dissipar esse nó eu dou uma risada nervosa enquanto conto algo que foi muito duro, como se tentasse poupá-la um pouco para que não me ache pesada, ou triste demais. E então lembro que aquele é o momento de mencionar que de vez em quando eu fico rindo de nervoso para não chorar e evitar de estragar meu dia com uma dor de cabeça.

Aceito que talvez eu seja pesada demais mesmo, e eu mereça me aliviar e me tornar mais leve.

E então o que era um riso nervoso e um relato, se transforma em um grunhido indefinido entre lágrimas.

Ela, com uma naturalidade invejável, oferece um lenço e me pede para repetir algumas coisas que o embargo da minha voz não a deixa ouvir. Sempre tomando suas notas e puxando um pouco mais.

É como tomar um laxante muito forte para expelir um veneno. Um veneno que tomamos todos os dias e nos consome agonizante e lentamente.

Mas a cada sessão, a dose que aceitamos diminui e também a concentração em nosso corpo.

Pode ser que às vezes a gente pule no tanque desse veneno de boca aberta, mas esses episódios vão ficando mais raros também.

Com a mesma naturalidade, ela avisa que a sessão está chegando ao fim. Propõe desafios para solucionar os problemas que ouviu, fala um pouco sobre a metodologia e se despede.

Eu tomo uma água, procuro um banheiro, lavo o rosto, recomponho-me e, olhando para meu rosto inchado e vermelho no espelho, eu penso: foi ótimo.

Agora de volta ao trabalho.

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