Você já se viu empurrando algum assunto “para baixo do tapete” como se fingir que ele não existisse fosse sumir com as consequências dele? Ou já percebeu alguém fazendo isso? A humanidade está, a passos lentos, se dando conta de que fugir de conversas difíceis não é o melhor caminho a ser tomado.

O texto de hoje é para destrinchar um pouco a anatomia de um tabu. Como começam os tabus e por que certos assuntos são tratados como obscuros demais para serem tocados?

Escolhi dois pontos específicos para tratar desse tema: saúde mental e educação sexual. Ambos são temas que já foram bastante ignorados por serem densos, mas a partir deles podemos visitar inúmeros outros tabus de que estes são “causa raiz”.

O ser humano, assim como uma variedade de seres vivos, se relaciona sexualmente por uma razão simples e primitiva: a continuação e preservação da espécie. Sendo assim, o ser humano tem diversos hábitos no cotidiano voltados para conseguir esse objetivo instintivo. O ser humano também é dotado de uma cognição complexa que é capaz de produzir um comportamento cultural. Então, considerando a união de hábitos oriundos do impulso natural e dos hábitos sociais e culturais, o ser humano parece estar separado dos outros animais considerados selvagens, mas apenas parece.

Por razões diversas, incluindo crenças religiosas e políticas, o hábito sexual acaba sendo enxergado como algo que deve ser reprimido, chegando a ser tratado como um termômetro de caráter quando não é. De fato, se você segue uma religião e acredita que deve seguir um determinado comportamento visando não se afastar de sua espiritualidade, o faça. Mas é importante lembrar que se a figura máxima que rege a sua religião tiver oferecido a escolha (ou livre arbítrio) aos outros, não é você, semelhante, que deve unir forças para removê-la.

Sendo assim, pouco se trata de educação sexual entre famílias e comunidades, e isso tem uma consequência nociva: crescemos demonizando um comportamento natural e não aprendemos a nos proteger quando isso é usado de forma violenta e sem consentimento. Não aprendemos sobre abuso, sobre planejamento familiar e ISTs. Criamos estigmas sobre portadores de HIV, proferimos frases como “só engravida quem quer” ou pior, chegamos a culpar vítimas de abuso. E nos tornamos adultos que não sabem educar crianças a se proteger e viver seus futuros impulsos sexuais de forma saudável.

Transformamos um instinto primal em fonte de transtornos de personalidade e doenças psiquiátricas. É assustador o número de pessoas que apresentam transtorno da personalidade borderline por terem sido vítimas de abuso. Fora os suicídios e sofrimentos que duram uma vida.

Será que passar por isso ou permitir que alguém passe por isso é realmente mais fácil do que sentar e conversar de forma aberta, realista e educativa, sem agir como se a natureza tivesse errado em criar este mecanismo? A conversa que você deixa de ter é um potencial trauma que vem da necessidade de aprender não suprida. Você não incentiva alguém a ter um comportamento sexual nocivo ao orientar sobre isso, muito pelo contrário, não falar sobre o assunto é muito mais arriscado, pois a pessoa será lançada nesta fase sem nenhum conhecimento. E como falamos aqui sobre vários tópicos, conhecimento é poder.

Ainda há muito estigma também em saúde mental. Todos nós temos algum grau de distúrbios cognitivos, então seria ideal que, no mínimo, isso fosse aceito e as pessoas buscassem, para seu próprio bem, aprender a lidar com emoções e conseguir superar a vida um dia por vez. Terapia é algo que não é tão acessível, mas se fosse mais disseminada a necessidade de constante acompanhamento, desabafo, nutrição de neurotransmissores e ajuda, talvez o acesso a esse serviço primordial fosse mais amplo.

A consequência disso é que muita gente não sabe mais lidar com tristezas naturais pela urgência de parecer sempre feliz, muita gente oculta violências e vive de aparências para não ser julgado, ninguém consegue largar o medo de errar, as pessoas acham que depressão é “o jeito de alguém” até que a pessoa não suporte, as pessoas acham que o viciado em drogas “escolheu” por pura maldade aquele caminho, que a compulsão alimentar e obesidade são curadas com violência e muito mais. Somos seres disfuncionais por nossa hipocrisia. Não falar sobre a causa raiz dos vícios, traumas, tristezas, fraquezas, dores e tudo mais não vai fazê-los sumir. O viciado não vai parar de querer fugir de sua realidade por você dizer que drogas fazem mal. A pessoa que sofre dolorosamente a depressão não ficará curada porque você acredita que o suicídio a fará ir para o inferno. Você inventar uma razão para não lidar com algo, transformá-lo em tabu e jogar na obscuridade não irá magicamente trazer soluções.

Uma ótima fonte de conhecimento para entender melhor sobre vícios e outras muitas questões que precisam ser resolvidas, por exemplo, é o canal do médico Drauzio Varella. Todos os vídeos são excelentes e tratados com verdade e abertura, com verdadeira intenção de lidar com os fatos. Mas minhas séries preferidas são: Drauzio Dichava e O sistema.

Diante da percepção de que precisamos da educação sexual e orientação para redução de danos e obtenção de saúde mental em nossas vidas, apresentadas, OBVIAMENTE, de forma adequada para o entendimento de cada idade, alguns tópicos são de fundamental importância:

  • Como se prevenir de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) Falar sobre vacinas, preservativos, tratamentos, higiene e evitar o compartilhamento de materiais como seringas e objetos íntimos são alguns dos meios de evitar uma boa quantidade de doenças severas ao organismo.
  • Como identificar um comportamento de agressão à criança A criança precisa saber que aquela pessoa da escola, da vizinhança, da rua ou até da família pode não estar assim tão bem intencionada. E precisa poder te contar isso, se sentindo protegida e não julgada. NUNCA faça as perguntas: Por que você não tentou fugir? Por que você não me contou antes? Você tem certeza que isso aconteceu? Tenha um comportamento receptivo para obter um relato completo e seja ativo em proteger e ajudar a criança a se sentir segura, aliviada e pronta para superar aquela violência, sem se sentir culpada e sabendo que a vida pode ir além daquilo.
  • Como identificar um relacionamento abusivo Esse serve para qualquer idade. As pessoas são muito fortes quando aprendem a ser independentes, a se valorizar tanto que outra pessoa não se torna o parâmetro de seu valor e que não é necessária a validação de ninguém para que ela encontre satisfação nas coisas que realmente acha interessantes.
  • Redução de danos é muito melhor do que proibicionismo. As pessoas vão continuar usando álcool e ilícitos enquanto isso parecer uma alternativa à realidade e tudo mais. Quanto mais cuidarmos das pessoas para que se sintam bem em vez de tentar controlá-las e proibí-las e punir cada um de seus passos, melhores resultados teremos.

O conhecimento não deve ser demonizado. Quanto mais pararmos de agir como se falar sobre algo é morder o fruto proibido, melhor viveremos e até para a religião isso pode ser vantajoso. Nossa fé se torna muito mais firme quando nós questionamos as coisas e seguimos acreditando. Quando uma provação não faz tudo ruir. Quando enfrentamos de frente e nos sentimos realmente firmes no que acreditamos. Fugir de algo nos torna muito superficiais. Vamos quebrar tabus para que a gente não transforme algo iminente em uma dor inesperada.

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