Assim como é praticamente certo que a jornada do investidor passe pelos Títulos Públicos, eu diria que é quase certeza que a jornada de grande parte dos investidores brasileiros começou pelos Títulos Privados. Sim, aquela Poupança que você ganhou quando era criança ou fez quando começou a trabalhar! Hoje começaremos nossa série especial sobre investimento em Títulos Privados, mostrando conceitos novos que não estavam presentes nos investimentos públicos.

Esse tipo de investimento engloba os mais variados nomes e siglas que podem confundir facilmente o investidor iniciante: CDB, LCI, LCA, LC, CRI, CRA, Poupança, Debênture, Debênture incentivada e por aí vai. Mesmo tendo essa gama de nomes, a ideia deles é sempre a mesma, afinal são investimentos classificados como Renda Fixa: você empresta dinheiro para alguém (neste caso uma empresa privada) em troca de juros no futuro.

O governo, teoricamente, usa o dinheiro obtido via Tesouro Direto para devolver serviços para população e juros para os credores. No caso dos títulos privados, as empresas arrecadam dinheiro via emissão de títulos para poderem crescer, melhorar seus serviços, manter-se competitiva, etc. Vamos ver um exemplo disso abaixo:

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Imagem retirada do site ADVFN.

Essa empresa de aluguel de automóveis necessitou levantar uma determinada quantia para expandir os seus serviços (adquirir mais veículos, construir novas lojas em uma determinada região, etc.) e para isso decidiu emitir títulos no formato de debêntures (veremos em mais detalhes como elas funcionam em um artigo futuro). Os investidores podem adquirí-los com uma promessa de receberem juros até a data de vencimento do título.

O mesmo acontece com os bancos que emitem CDB ou LCI/LCA, por exemplo. Eles obtêm dinheiro dos investidores de um lado para emprestar dinheiro para quem precisa do outro lado, atuando como intermediadores. Os empréstimos consignados, de casa própria, cheque especial ou de compra de carro são originados do dinheiro de quem compra títulos CDB nesses bancos. Assim como o dinheiro obtido via LCI é voltado para empréstimos imobiliários e LCA para empréstimos de agronegócio (veremos tudo em detalhes nos próximos artigos).

Curiosidade: Enquanto os grandes bancos pagam, atualmente, em torno de 6% a.a de juros aos seus credores, eles cobram até 357% a.a de juros aos seus devedores (Fonte: UOL Economia). Essa diferença entre os juros recebidos e os cobrados chama-se spread bancário. O Brasil é um dos países com o maior spread bancário do mundo.

Títulos Privados são seguros?

A segurança do título privado está diretamente relacionada com a robustez da empresa que o emite. Uma empresa sólida, bem gerida e lucrativa será sempre mais segura de investir do que uma com prejuízo e mal gerida. Seria melhor emprestar seu dinheiro para a Avianca, que está em processo de recuperação judicial, ou para a Magazine Luiza, que recentemente comprou a Netshoes e se encaminha para ser a “Amazon brasileira”?

Mas como saber se a empresa/banco/instituição financeira são sólidas? Será que é necessário ir atrás de seus balanços trimestrais e conhecer os gestores? A resposta é: Não.

Antes de investir em tais produtos, você terá acesso ao rating da empresa emissora. Quanto maior o rating, mais sólida a empresa é. Essa nota é dada por instituições independentes de renome internacional, talvez você já tenha ouvido falar delas: Moody’s, Fitch e Standard & Poor. Normalmente, as corretoras informam esta avaliação abertamente a todos os clientes no seu portal de investimentos. Além disso, algumas corretoras disponibilizam títulos apenas de empresas com boas notas.

Lembre-se: Títulos privados são, por natureza, mais arriscados que Títulos Públicos.

Agora fiquei com medo…

Calma! O risco e medo de qualquer investimento é inversamente proporcional ao seu conhecimento sobre ele. Pode parecer arriscado agora mas garanto a você que só é arriscado se você não souber o que está fazendo. À medida que você for lendo os artigos e conhecendo mais sobre eles, se sentirá mais confortável em investir.

E aquela história do FGC, como é?

O Fundo Garantidor de Crédito é uma espécie de rede do trapezista capaz de aguentar uma queda de até R$250 mil.

Esse Fundo é responsável por garantir que o pequeno investidor brasileiro sinta-se mais seguro ao investir em Títulos Privados. Se você for dono de um título CDB de um banco que faliu, terá seu dinheiro de volta (com o valor corrigido até o dia da quebra) sem nenhuma burocracia, em até 45 dias.

Em 2017, uma nova regra foi criada estabelecendo o limite máximo do FGC para R$1 milhão a cada 4 anos, ou seja, ele garantirá R$250 mil, mas terá apenas “4 tiros” de cobertura, sendo renovado a cada 4 anos.

Se o banco faliu, de onde vem esse dinheiro que estão me pagando?

Resposta curta e direta: dos outros bancos.

O FGC é mantido por um conjunto de várias instituições associadas, e em cada operação bancária, uma pequena porcentagem do valor é transferido para o FGC. Uma parte daquelas taxas abusivas cobradas em TEDs vai para o FGC, por exemplo. É muito importante investir apenas em instituições associadas, veja a lista completa clicando neste link.

Todos os títulos privados são cobertos pelo FGC?

Cuidado, nem todos são estão garantidos pelo FGC. Debêntures, por exemplo, não estão. Veja alguns produtos que são cobertos:

  • Depósitos à vista;
  • Poupança;
  • Letras de Câmbio (LC);
  • Letras Hipotecárias (LH);
  • Letras de Crédito Imobiliário (LCI);
  • Letras de Crédito de Agronegócio (LCA);
  • Certificado de Depósito Bancário (CDB).

A lista completa pode ser vista clicando neste link.

Tá…então até R$250 mil estou seguro?

Sim.

E como sei se o FGC funciona mesmo?

É possível ver o histórico de vezes que o FGC foi acionado clicando neste link e depois clicando em “Garantias: Pagas e Recuperadas”. No momento em que este artigo é escrito, a última vez que ele foi acionado foi em 06/06/2018, quase um ano atrás.

Ok, entendi. O que preciso saber agora?

Aqueles mesmos conceitos que foram mostrados no primeiro artigo do Tesouro Direto continuam valendo aqui: Imposto de Renda, IOF, taxa de juros, inflação e data de resgate. Porém, nos títulos privados não há cobrança de taxa de administração nem de taxa de custódia como há no Tesouro Direto.

Porém, há alguns conceitos novos que você precisa saber antes de começar a escolher em qual título investir: liquidez e carência.

Já aprendemos que o Tesouro Direto tem liquidez diária, ou seja, é possível sacar o dinheiro investido a qualquer momento, o dinheiro não fica “preso”. Já nos títulos privados isso pode mudar. Devido à enorme gama de títulos e emissores diferentes, eles podem ter as mais variadas regras de liquidez. Boa parte dos CDBs/LCI/LCA não tem liquidez, impossibilitando o saque antes da data de resgate.

Sabendo disso, é muito importante planejar corretamente um investimento em título privado sem liquidez. Alinhe seus objetivos financeiros com a data de vencimento do título, pois não será possível sacá-lo antes da data de resgate.

Outra coisa importante lembrar é que liquidez tem preço. Um investimento em Renda Fixa com alta liquidez costuma render menos do que um que não tenha liquidez. Assim como um investimento com maior data de vencimento rende mais do que um de menor prazo.

Já a carência tem a ver com o tempo que o dinheiro fica “preso” antes de poder ser resgatado. No caso de investimentos sem liquidez, as duas datas são iguais.

Há CDBs com período de carência de apenas 1 dia e vencimento em 2 anos. Uma Lei determina que LCAs devem ter, no mínimo, 90 dias de carência, e por aí vai.

Entendi, investimento sem liquidez não pode ser resgatado até o vencimento. E a carência diz a partir de quando posso resgatá-lo.

Exato. Vamos ver alguns exemplos para ficar mais claro:

  • Produto 1: CDB do Banco XYZ;
  • Taxa de juros: 118% CDI;
  • Carência: 14/05/2023
  • Resgate: 14/05/2023
  • Liquidez: Não tem, dinheiro só é devolvido ao final do investimento.

  • Produto 2: LCA do Banco UVW;
  • Taxa de juros: 90% CDI;
  • Carência: 14/08/2019;
  • Restage: 14/05/2020;
  • Liquidez: A partir de 14/08/2019. Entre a data de carência e data de resgate, o dinheiro pode ser retirado. No dia 14/04/2020 todo o dinheiro será devolvido para o investidor.

E como o CDI entra nessa história?

Existe uma lei no país obrigando os bancos a sempre operar com caixa positivo, eles não podem finalizar um dia de operação com prejuízo. Para isso, eles estão sempre emprestando dinheiro entre si na forma de um título chamado de Certificado de Depósito Interbancário, em troca de uma taxa de juros que acompanha a taxa Selic (definida pelo COPOM).

Esta taxa é conhecida como Taxa DI (Depósito Interbancário), mas é comumente chamanda de CDI. Mesmo havendo títulos privados atrelados à inflação e prefixados, é esta taxa que dita como boa parte dos títulos privados irão render.

Se você notar que um CDB rende 114% isso NÃO quer dizer que ele irá de remunerar isso ao ano. E sim 114% do CDI. O CDI está hoje em 6,4% (Fonte: B3), então:

1,14 x 6,4 = 7,296% a.a. de rentabilidade bruta.

Saber como funciona esses cálculos de porcentagem do CDI é crucial para o investidor. Assim será possível notar que alguns CDBs ofertados por grandes bancos rendem menos que a Poupança, esse conhecimento é fundamental para não aceitar qualquer coisa que o gerente ou assessor falar para você.

No próximo artigo da série iremos mostrar como funciona em detalhes Certificado de Depósito Bancário, o famoso CDB, um dos produtos de Renda Fixa mais populares no cenário atual. Até lá!

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