Quando alguém entra na nossa vida, uma sensação de novo e de entusiasmo nos enche. Descobrimos características e gostos parecidos, nos divertimos com a personalidade que nos é apresentada e nos sentimos bem ao estreitar laços ajudando em momentos difíceis. Acabamos nos habituando ao momento sem pensar muito que ele pode chegar ao fim.

Ontem eu estava conversando com um amigo e ele me falou algo que me fez querer editar esse texto novamente. Ele disse: “Tudo tem um começo, um meio e um fim, de certa forma. Lidamos muito bem com os dois primeiros, mas nem sempre lidamos bem com o último”. E de fato, não importa como o fim venha, seja por estarmos deixando para trás uma fase de nossas vidas, ou indo embora para outro lugar ou até mesmo pela chegada da morte, o fim inevitável, ninguém se sente completamente pronto para perder algo ou alguém sem dores.

Nós não sabemos quando é a última vez que veremos alguém. Nós não temos o poder de prever ou criar datas de validade para nossos relacionamentos, nem mesmo fazê-los durar para sempre. E não é fácil dar o nosso melhor o tempo todo para garantir que esse último momento seja maravilhoso em sua imprevisibilidade. Na verdade, nós vivemos muito mais como se nunca fôssemos ter um fim. Nossas emoções nos preenchem e, para lidar com isso, é preciso um amadurecimento que vem muito mais dos erros que cometemos no caminho do que por um meio mais fácil. E essas emoções às vezes nos levam a fazer jogos, birra, agir com orgulho e prolongar intrigas que se transformariam em remorso caso o fim chegasse de forma abrupta antes de serem superadas.

O remorso foi a maior dor que eu já senti. Perdi alguém muito importante para a morte, numa época em que eu faltei completamente em presença e empatia com ele. Durante muitos anos, me culpei e me puni por ter feito isso. Demorei muito a tentar me perdoar, e nunca o fiz completamente. Ainda me pego lamentando a minha imaturidade e o meu orgulho vez ou outra. Mas quando eu faço o exercício que minha psicóloga sabiamente ensinou, levando para uma terceira pessoa hipotética o fardo que eu carregava, eu não consigo julgar ou querer punir essa pessoa que, no fim de tudo, sou eu mesma. Afinal, a sensação de que podíamos ter lutado mais, feito mais, tentado mais, amado mais… sempre vai existir. Porque realmente poderíamos. Mas como poderíamos saber e aprender essa lição sem errar primeiro?

Além disso, um relacionamento é uma troca, não pode ser unilateral, independentemente de sua natureza (relacionamento amoroso, fraterno, amistoso.. o que for). Então se a outra pessoa de algum modo partiu, não cabia apenas a você a missão de fazer tudo dar certo. Da dor, se aproveita o aprendizado de tentar fazer um pouco mais. De pelo menos criar a consciência de que um pedido de desculpas pode vir antes, de que uma demonstração de afeto não precisa de uma condição (afinal o amor por si só é incondicional) e de que você faz muito bem fazendo o que pode.

A vida tem reviravoltas de muitas formas, e só temos esse breve, efêmero tempo de vida para tangenciar os universos que são as vidas dos outros e as nossas, e aproveitar cada momento desse encontro. Não vale a pena se apegar a nada que seja torpe demais. Entregue empatia, perdão, entendimento e o que você pode fazer. No fim, a paz virá da sensação de que, mesmo o último momento não sendo o melhor, a maior parte do tempo foi tão memorável que a pessoa não se preocuparia em guardar outra marca diferente da que ficou numa perspectiva maior. Somente o afeto é um mecanismo para que o adeus não precise doer tanto.

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