O post de hoje parece antecipar a indicação cultural da quinta-feira, mas não é isso.

Hoje, quero comentar um trecho do filme “A liberdade é Azul“, de que lembrei enquanto refletia um pouco sobre liberdades individuais e respeito. Clique neste link e assista ao trecho que separei para você.

A cena se trata da conversa entre a personagem Julie e sua vizinha. Durante uma visita, essa vizinha pede para Julie participar de um abaixo-assinado em prol da expulsão de uma das moradoras do prédio, que trabalhava como prostituta. Quando o pedido é feito, ela se posiciona: “Desculpe, não me meto nessas coisas”. A vizinha insiste: “Ela é uma prostituta!”, recebendo de Julie a resposta: “Não é da minha conta”. E quantas coisas não são da nossa conta, não é mesmo?

A cena traduz um dos questionamentos mais fortes da minha reflexão: “Por que dar satisfação?”. E pior, “Por que querer esse tipo de satisfação?”. De que serve saber sobre os hábitos e aspectos da vida pessoal de alguém que não interferem na vida de mais ninguém? Que direito temos de tomar posse da intimidade dos outros e esperar que eles justifiquem o seu eu e suas decisões particulares para nós, como se fôssemos mediadores ou juízes do que é certo e errado? Nenhum.

Estamos inseridos em uma sociedade que deixa de perceber o melhor das pessoas por se distrair com coisas supérfluas. Por exemplo, não importa o quanto alguém é competente, educado e capaz, se não for heterossexual, será enxergado através de um filtro por quem não consegue perceber o que realmente importa. Seja o seu gênero, sua sexualidade, sua etnia, religião ou qualquer outra característica tão natural quanto essas, que acabam chamando muito a atenção de quem observa por uma perspectiva de questões tão rasas quanto uma colher de chá. Eles poderiam seguir suas vidas normalmente com suas próprias características e desfrutar do que realmente importa no outro, que são sua competência, educação e capacidade. Mas preferem ofuscá-las com sua própria ignorância.

Assim, ser você mesmo é quase um desacato para algumas pessoas. E elas insistem no dispêndio de sua própria energia para refrear a absurda vontade que temos de… ter o direito de ir e vir em paz como um ser humano comum. A mulher querer ser respeitada é uma afronta, o negro querer igualdade é uma ofensa, a comunidade LGBTQI+ não aceitar ser alvo de chacota é um desaforo. E como é extenuante lidar com esse desejo que eles têm de impor seus padrões.

E, é claro, o problema não está em querer conhecer alguém mais profundamente. Questionar a pessoas sobre seus gostos, o que as faz sentir alegria e as fases pelas quais estão passando é absolutamente normal. O que não é justo é ter uma checklist predefinida, como se as coisas que podem fazer parte da vida de alguém fossem limitadas e padronizadas. Um simples exemplo pessoal disso é quando falo que não quero ter filhos. Sempre tem alguém que diz que vou mudar de ideia ou querendo me assombrar com minha potencial solidão. E isso não é exatamente se preocupar com minha felicidade, isso é apenas focar em quando isso vai mudar ou quando vou me arrepender. Essa felicidade é responsabilidade minha, é da minha conta. E a sua é responsabilidade sua.

Quando se está realmente preocupado com a felicidade de alguém, o tom das perguntas é diferente. Você não pressiona quando pergunta se a pessoa já está perto de se formar, ou se ela quer formar uma família, por exemplo. O tom é de interesse no sentimento, não no objetivo. O tom é de incentivo para estar bem, e não para adequar a vida às expectativas que estão sobre você. Importar-se com alguém é estar pronto para ouvir o outro sobre o que ele deseja compartilhar, sem tentar impor o seu significado daquilo para ele, por mais que suas convicções gritem em discordância. É entender o ser humano por seu universo, e não por pontos microscópicos de futilidade supervalorizada sem razão lógica. Respeito não é um favor, não precisamos “assumir” o que somos como se a humanidade devesse ser alertada. Se você deseja salvar alguém, comece salvando a si mesmo olhando para o seu próprio umbigo, pois certamente encontrará muitas questões a resolver por lá. Afinal, por mais que pareça que sim, a vida do outro não é da nossa conta.

2 comentários em “Não é da minha conta

  1. Perfeito! Um texto que esboça um pensamento que muita gente tá precisando assimilar… Muitas vezes acontece que algumas pessoas não abrem a mente para isso. E quando enxergam alguém que o conseguem, a primeira opção é sempre rebater, criticar e etc. E fazem isso só e somente só não por se preocuparem com a felicidade do outro, mas porque é sempre mais fácil depositar um pouco do fardo de sua frustração na outra pessoa né (até já foi discutido isso por aqui), porque é sempre mais fácil e até um pouco reconfortante para uma pessoa comodista saber que alguém vai passar pela mesma sina que ela está passando e pelos mesmos motivos (A melhor coisa que um comodista pode ter é alguém que concorde com ele). Um exemplo, vai ver até que a própria pessoa que lhe critica por não querer ter filhos também não quisesse, mas não foi forte o bastante para se permitir isso; É sempre mais fácil manter todos a sua volta na zona de conforto ao invés de tentar sair dela!!!

    Isso também me lembra muito aquela velha frase… “As pessoas querem lhe ver bem mas nunca melhores do que elas”, que se eu for tentar refletir ou escrever sobre passo o dia inteiro aqui!!

    Até a próxima postagem. 🙂

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    1. Esse tipo de sentimento negativo nos faz projetar o pior de nós nos outros. É importante sempre levar em consideração que cada pessoa tem a sua história e sua realidade, e merece todo o respeito, assim como nós mesmos. Estejamos sempre em busca de abandonar estes maus sentimentos e ter empatia e felicidade com as conquistas individuais, sem diminuí-las ou compará-las.

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