Na quarta, e penúltima, parte da nossa série especial sobre Tesouro Direto, iremos mostrar como funciona o título Tesouro IPCA+ em detalhes. Se você não leu os demais artigos da série, recomendo fortemente que o faça antes de seguir a leitura, no primeiro explicamos os termos e conceitos técnicos dessa modalidade de investimento, no segundo falamos especificamente sobre o Tesouro Selic e no terceiro, sobre o Tesouro Prefixado.

Visão Geral

O Tesouro IPCA+ é classificado como pós-fixado, pois tem seu valor corrigido por um indexador, nesse caso o IPCA. Porém, ele também tem uma parcela prefixada definida no momento da compra. Portanto, é um título que sempre vai garantir aumento do poder de compra do investidor, já que assegura uma rentabilidade acima da inflação.

De acordo com o site oficial do Tesouro Direto, é um título indicado para quem deseja poupar para a aposentadoria, estudo dos filhos, ou qualquer outro investimento de longo prazo, pois oferece datas de vencimemento mais longas, não necessitando pagar IR periodicamente para reinvestir o dinheiro.

Curiosidade: Assim como o Tesouro Prefixado, o investidor está comprando um “Vale R$1.000,00”, a diferença é que essa quantia é corrigida pela variação mensal do IPCA desde 15/07/2000 (Fonte)

Também possui duas modalidades, a “Tesouro IPCA+” possui fluxo de pagamento simples, ou seja, o investidor recebe a quantia corrigida pela rentabilidade definida no momento da compra apenas na data de vencimento do título (caso não venda antecipadamente). E a modalidade “Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais”, faz pagamentos semestrais ao investidor até a data de vencimento do título. Ao final do artigo falarei em mais detalhes sobre o pagamento de juros semestrais.

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Fluxo de pagamento simples do Tesouro IPCA+.

Entendendo a rentabilidade

A taxa contratada no momento da compra é apresentada ao investidor de forma anual. Como já foi dito nos outros artigos, essa taxa só é válida se você mantiver o título até o vencimento. O valor exibido na coluna “Taxa de rendimento” corresponde à parte prefixada do título, a remuneração atrelada à inflação será flutuante durante o período do investimento. Note que as datas de vencimento são bem mais longas que às do Tesouro Selic e Prefixado.

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Títulos disponíveis para compra no momento em que este artigo é escrito.

A taxa prefixada do Tesouro IPCA+ também sofre influência da taxa Selic. Do mesmo jeito que o Tesouro Prefixado, os preços e taxa do título estão em uma balança equilibrada, se um diminuir o outro deve aumentar. Se a taxa Selic estiver alta, ou em tendência de alta, a taxa do IPCA+ irá aumentar e seu preço diminuir. Caso a Selic esteja baixa, ou em tendência de queda, a taxa irá diminuir e seu preço aumentar.

Como este título é indicado para investimentos de longo prazo, provavelmente o investidor fará pequenos aportes mensais. Não adianta tentar adivinhar qual é melhor dia de comprar. Aportando periodicamente o investidor terá uma rentabilidade e preço médios. Não é um aporte mais caro, ou com maior taxa de juros, que vai piorar, ou melhorar, drasticamente seu retorno num universo de pouco mais de 300 aportes (considerando Tesouro IPCA+ 2045).

Como a Selic está atualmente na sua baixa histórica, de 6,5%, as taxas prefixadas estão flutuando na faixa de 4,1% a 4,5%. Quando a Selic estava no seu topo, de 14%, as taxas ficavam entre 7,1% e 7,3%.

Entendendo os dados de compra

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  • Título:
    • Nome do título com seu respectivo ano de vencimento;
    • Títulos “com Juros Semestrais” são aqueles que pagarão cupons de juros duas vezes ao ano para o investidor.
  • Vencimento:
    • Data exata de vencimento do título, ou seja, data que o Tesouro recomprará o título pagará ao investidor.
  • Taxa de Rendimento (% a.a.):
    • No caso do Tesouro IPCA+, essa é a rentabilidade prefixada do título, no formato anual;
    • Não há incidência de ágio e deságio.
  • Valor Mínimo:
    • É possível comprar porcentagens de um título, sendo a menor possível a de 1%, e respeitando o mínimo de R$30.
  • Preço unitário:
    • Preço de compra de 100% (uma unidade) do título.

Simulando uma aplicação

Agora iremos simular uma aplicação no Tesouro IPCA+ usando o Simulador do Tesouro Direto. Vamos supor que seu filho(a) tenha nascido este mês e você deseja investir mensalmente uma quantia de R$200,00 para deixar nas mãos dele(a) no aniversário de 16 anos. Veja o passo a passo:

Clique no botão do lado inferior direito para simular uma aplicação:

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Em seguida, clique no botão ao lado de “Tesouro IPCA+ 2035” na tabela que irá aparecer na sua tela. Para um resumo de informações do título, clique no “i” que fica à direita do nome do título. Logo depois, clique em “Simular” na barra inferior.

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Conforme dito acima, vamos simular aportes mensais de R$200,00 até a data de vencimento do título. Para isso, clique em “Informe quanto você quer investir hoje”:

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Em seguida, preencha os campos “Valor inicial” e “Aporte mensal” com R$200,00:

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Agora veremos o resultado da simulação na tela que será exibida.

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Clique em “Ver e/ou alterar parâmetros”, como destacado na imagem acima, para alterarmos apenas um valor.

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Vamos alterar o campo “Expectativa IPCA” para 5,8%. De onde tirei esse valor? Peguei o histórico do IPCA anual dos últimos 16 anos e fiz uma média. Você pode colocar qualquer valor nesse campo, média histórica, expectativa futura do Relatório Focus, um chute seu, etc. Clique em recalcular e a nova simulação será exibida.

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Como falei também no artigo anterior, não acho que faz e sentido utilizar esse simulador para comparar um investimento indexado à inflação com outros indexados à taxa CDI. Caso você queira, há ferramentas on-line para tal. Vamos clicar em “Simulação detalhada”.

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É possível notar que haverá 194 aportes mensais de R$200,00 e que “apenas” R$39.000,00 dos R$97.573,95 (brutos) sairão do seu bolso, o restante é fruto dos juros compostos. R$8.801,24 vão para o governo na forma de Imposto de Renda, R$1.427,00 ficam na mão da B3 por intermediar a operação, restando para seu filho a quantia de R$86.403,76, o que corresponde à uma rentabilidade líquida de 9,22% ao ano. Lembre-se que esses valores são todos chutados, não temos como saber a inflação exata, nem a taxa de juros do título durante todo o período de investimento.

Nada mal ter R$86.403,76 no bolso sem nem ter terminado em Ensino Médio, não acha? Quer dar esse presente para o seu filho?

Venda antecipada

Diferentemente do Tesouro Selic e similarmente ao Tesouro Prefixado, o Tesouro IPCA+ tem preço muito volátil e o investidor iniciante pode se desesperar com rentabilidades negativas durante o período de investimento.

Lembre-se: o investidor receberá exatamente a rentabilidade contratada na compra quando o dia do vencimento chegar. Até lá, a rentabilidade contratada não vale nada!

Se você perceber que seu dinheiro está indo pelo ralo, não se preocupe, é apenas a variação do preço de venda do título. Por outro lado, o investidor poderá se deparar com uma rentabilidade muito maior do que a contratada. Essa variação tenderá a zero quanto mais perto o título estiver perto do vencimento, pois a volatilidade do preço tende a diminuir à medida que a data de vencimento se aproxima. Veja a imagem abaixo:

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A linha verde representa a rentabilidade teórica do título caso ele rendesse conforme a taxa contratada diariamente. A linha azul corresponde ao preço de venda do título, mostrando ao investidor a quantia exata que ele teria caso desistisse do investimento e vendesse a dívida de volta para o governo. No caso da imagem acima, não houve nenhum período em que o preço de venda do título ficasse abaixo da rentabilidade teória, mas poderia ter ficado abaixo ou até mesmo abaixo do valor investido inicialmente. As duas linhas irão obrigatoriamente se encontrar no dia do vencimento do título.

Como se caracteriza um cenário de rentabilidade negativa?

Vamos supor que José tenha comprado uma unidade do título do Tesouro IPCA+ 2045 hoje por R$1.021,77 à uma taxa de 4,44% ao ano, e no ano de 2027 haverá uma grande crise econômica mundial causando um período de incertezas e juros bem altos. Como os juros aumentaram, o preço de compra e venda do título devem cair, e José vai se deparar com um preço de venda de R$973,04, por exemplo. Se ele vender no meio do desespero, ele vai perder dinheiro, mas se for paciente e disciplinado continuará fazendo seus aportes mensais e, em 2045, ele terá exatamente a rentabilidade contratada média do período do investimento.

Como se caracteriza um cenário de rentabilidade maior que a contratada?

Agora vamos supor que Rosa tenha começado a investir no Tesouro IPCA+ 2045 exatamente no meio dessa crise hipotética em 2027. Ela irá comprar uma unidade do título por R$973,04. O tempo passou, a crise amenizou e o cenário econômico voltou ao normal no ano de 2031. O Brasil tem, mais uma vez, um cenário econômico de juros baixos e inflação baixa. O preço de compra/venda dos títulos aumentaram pois as taxas diminuíram. Agora é possível vender um título do IPCA+ 2045 por R$3.232,46 (por exemplo), um preço muito maior do que a rentabilidade contratada pode proporcionar. Portanto, se ela vender o título, terá uma rentabilidade muito maior que a contratada. E se ela quiser continuar investindo mensalmente, terá a rentabilidade média dos aportes. Nesse caso é melhor vender ou manter? Vai da situação e dos objetivos de cada um.

Foi em um contexto bem parecido com esse último que pessoas preparadas puderam obter rentabilidades próximas de 60% ao ano no Tesouro Direto entre 2016 e 2017. Veja a tabela abaixo:

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Quem estava preparado soube aproveitar os quase 60% de lucro em um ano (Fonte: Relatório mensal do Tesouro Direto)

Só recomendo especular no preço de venda do Tesouro Direto para aqueles que já têm conhecimento avançado sobre como cada um dos títulos funciona e já têm uma quantia de dinheiro separada para tal. Não coloque seu dinheiro em investimento algum sem saber o que está fazendo.

Pagamento de juros semestrais

Essa modalidade de investimento faz pagamentos semestrais ao investidor. É recomendado para quem deseja complementar a renda com os juros recebidos duas vezes ao ano. Segundo o site oficial do TD, possui fluxos periódicos de pagamento ao investidor (cupom semestral de juros), a uma taxa de 6% ao ano, pagos semestralmente, resultando em uma taxa de 2,9563% por pagamento. A rentabilidade é dada pela taxa anual de juros mais a variação do indexador até o vencimento. No pagamento desses rendimentos semestrais há incidência de IR, obedecendo a tabela regressiva.

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O pagamento segue o calendário do Tesouro Direto, os juros são pagos em 15/Fevereiro e 15/Agosto, no caso de títulos com vencimento em ano par, e 15/Maio e 15/Novembro, no caso de título com vencimento em ano ímpar, de todos os anos até o vencimento. O próprio TD não recomenda esse título caso você deseje reinvestir os juros recebidos, pois há incidência de IR em todos os pagamentos, sendo melhor investir em títulos com modalidade simples. Não é recomendado também se você estiver na fase de acumulação de riqueza, pois os juros compostos perdem o efeito “bola de neve” a cada evento de pagamento, e também por causa do IR.

Ele tem um cálculo um pouco mais complicado do que o Tesouro Prefixado com Juros Semestrais. Se você quiser saber mais sobre como os cálculos são feitos, recomendo a leitura deste documento.

Resumo

  • Recomendado para longos períodos de investimento, pensando em objetivos como: aposentadoria, compra de um imóvel, estudo dos filhos, etc.
  • Garante uma rentabilidade real (acima do IPCA) para o investidor, mesmo em cenários de inflação alta;
  • Não recomendado para reservas de emergências por apresentar volatilidade no preço de venda até a data de vencimento;
  • Há títulos com fluxo de pagamento simples (apenas no vencimento) ou semestral, seguindo o calendário do Tesouro Nacional;
  • Em caso de venda antecipada, o Tesouro Nacional pagará o valor de mercado, a rentabilidade poderá ser maior ou menor do que a contratada, dependendo do preço do título no momento da venda;
  • O preço e taxa do título sofrem influência direta das incertezas da economia e expectativa da taxas de juros;
  • Modalidade de juros semestrais é indicada para quem deseja utilizar os rendimentos para complementar a renda a partir do momento da aplicação;
  • O pagamento de juros semestrais tem datas diferentes dependendo do ano de vencimento do título;
  • Os pagamentos semestrais representam uma antecipação da rentabilidade contratada e tem valor fixo de 6% brutos ao ano.

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O próximo, e último, artigo da série vai mostrar um passo a passo prático sobre o processo de compra e venda de um título. Até lá!

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