Fragilidade é uma característica que tentamos esconder a todo custo.

Quando alguém nos parece frágil, também parece digno de pena ou despreparado para a vida. Imaginar uma pessoa de sucesso significa, entre outras coisas, imaginar alguém impávido. Inabalável. Mas a verdade é que chorar até dormir, no banho para ninguém ver, ou até mesmo ter um colapso na frente de todos são momentos que quem viver terá.

Eu me sabotei incontáveis vezes na minha vida, e ainda não parei. Mas uma das sabotagens de que eu mais me arrependo foi de não ter chorado mais. E olha que eu fui uma criança e jovem bem chorona, mas não conseguia canalizar tudo o que sentia para esse choro. Eu chorava pela ponta do iceberg. Eu engolia o nó na garganta de dores maiores e, não as colocando para fora, as absorvia. Quando outra coisa mexia comigo, não havia mais espaço para engolir. E então eu chorava. Mas só por aquele pequeno abalo. Aquele mar de outras dores continuava lá, prestes a transbordar, mas por um bom tempo, ele derramava um pouco pela borda e permanecia cheio.

Se eu soubesse as consequências que não chorar teria, eu teria chorado muito mais. Na frente de todos, sem receios. Teria chorado até aliviar. Mas, por sorte, descobri isso a tempo, e depois de uma tsunami, eu já não tento engolir os nós e fingir que isso me faz mais forte. E pior, não era só fingir. Eu acreditava que era bem forte. E todo mundo ao meu redor partilhava um pouco dessa ideia. Mas a verdade é que eu me tornei muito emotiva, choro muito, atravesso os baixos intensamente, perco o apetite, e só assim posso ver que consigo muito mais. Eu não preciso parecer forte nem sã. Foi me deixando cair que eu aprendi a abrir mão do que eu achava indispensável. E aprendi a correr atrás do que realmente é. E ainda tem muito chão para percorrer.

Estamos tão condicionados a parecer fortes que desperdiçamos a oportunidade de nos fortalecer no luto. Eu chorei mais de 8 anos de dor quase de uma vez. Agradeço a minha terapeuta por ter puxado de tão longe tudo isso junto comigo, pois é por isso que agora eu consigo fazer isso sozinha no meu travesseiro e estar firme quando a manhã chega. Impávida. Inabalável. Mas só quando eu realmente preciso, sem agir como se eu fosse assim o tempo todo.

Nós nos acostumamos a situações que ninguém merece passar apenas por apego. Nós desejamos o alívio de abrir mão, mas fugimos da fragilidade da despedida. Fugimos da dor, de sofrer ouvindo a playlist de bad e de receber a consolação dos queridos. Seguramos o choro por vergonha. Mas se eu pudesse dar um conselho, seria este: sinta suas dores, chore por elas, se deixe cair, se arrependa, deixe sangrar. Depois de um tempo a ferida vai fechar e, no lugar, vai ficar um marco do que você superou, uma certeza de que poderia fazer de novo. E você pode fazer de novo, e certamente precisará. Se tem uma coisa que nenhuma crença consegue desmentir é que, se não estamos nesse mundo para evoluir, no mínimo o fazemos em paralelo com nossa missão central.

Tudo isso não só nos fortalece, como também nos torna mais compreensivos, nos estimula a ter compaixão. Porque quando a gente entende que cai muitas vezes, se levanta um tanto de outras e se compreende nos altos e baixos, conseguimos olhar para o outro e ver através de suas próprias oscilações. Não podemos ser empáticos sem que antes tenhamos compaixão com nós mesmos. E, para isso, precisamos descer e encarar nossos demônios nos olhos, aprender a conviver com eles de perto, até adestrá-los, para que eles não nos puxem para baixo quando tentarmos subir. Impávidos. Inabaláveis.

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