Acordar às 5 da manhã foi um hábito que me presenteou com percepções que talvez sejam banais para a maioria de vocês. Mas são valiosas para mim.

O céu meio escuro, a quietude da rua. O corpo quente e ainda sem reflexos, tentando insistir no sono. O silêncio quebrado apenas por alguns poucos carros passando, pessoas que acordaram antes de mim ou sequer dormiram. E os pássaros. Enquanto eu me alongava e respirava profundamente, enquanto eu comia minha aveia, enquanto calçava os tênis para me exercitar. Os pássaros cantavam, os carros passavam, em um crescendo. E eu pensava: “Esse é o meu preço. Um pequeno preço, mas o meu preço”.

Eu sabia que na feira, muito antes, as pessoas estavam com tudo organizado para trabalhar. E esse era o preço delas, maior que o meu. Enquanto eu levantava pesos, um caminhão passava. E outro, e outro. Já estavam na estrada antes que eu ouvisse o zumbido do meu despertador. E estavam sendo carregados muito antes disso também. Pesos muito maiores que os meus halteres. Preços maiores que o meu.

Enquanto eu tomava banho e me preparava para o trabalho com um café da manhã, as pessoas das padarias já haviam sovado massas, assado pães, e eles estavam na minha mesa. E os de ontem estavam nas mesas deles. Um preço maior que o meu.

Enquanto eu escrevia linhas de dentro de um escritório com ar condicionado, ouvia ao longe o som de pancadas no concreto. Pessoas ao sol derrubavam, construíam, consertavam. Eu estava sentada ali porque alguém previamente fez o mesmo no prédio em que eu me encontrava. Sob o sol, ou sob chuva. Pesos e poeira. Preços maiores que o meu.

E cada um desses preços me permitiu pagar o meu preço, e muitos mais. Um pequeno preço, mas o meu preço. E eu não consigo entender essa cultura que desvaloriza trabalhos com preços tão altos a pagar, e os faz ter tão pouco a lucrar.

Então, antes de lamentar, olhe para o seu preço. Talvez ele seja grande, e pagá-lo não vai ser fácil. Talvez ele seja assim, como o meu, mas você ainda não se dispôs a enxergar o quanto ele é pequeno, e ainda não começou a pagá-lo.

Eu desejo pagar o preço. E desejo devolver a todos que fizeram isso possível uma forma de aliviar os seus pagamentos. Quando eu colho os louros resultantes do pagamento de muitos preços (que não são todos meus), me vejo no dever de compartilhá-los.

Esse blog é uma das formas que encontrei para fazer isso. Há muitas outras ao meu alcance. Ao nosso alcance. E eu já não enxergo mais o direito de reclamar do meu preço. Enquanto o pago, eu desejo colaborar para que cada um consiga pagar o seu. Obrigada a todos que nos acompanham. Espero que estejamos ajudando com o seu preço, tornando-o mais administrável e suportável.

Bom carnaval! Estaremos de volta no dia 11 de março.

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