[Aviso: O texto pode conter gatilhos emocionais]

“Um bater de asas de uma borboleta no Brasil poderia provocar um furação no Texas.” (Lorenz, Edward)

O cientista, autor da frase conhecida como a explicação do efeito borboleta, produziu o trabalho que foi a base da teoria do caos. Posteriormente, passamos a chamar os sistemas não aleatórios com regras e condições iniciais conhecidas, mas resultados imprevisíveis, de sistemas estocásticos. Esses processos permitiram as inúmeras combinações que conduziram e conduzem a evolução do universo. Você pode estar se perguntando o que a empatia citada no título tem a ver com isso. Vou explicar.

A nossa vida é um processo estocástico, assim como vários outros no universo, como as cidades, que são resultado do aglomerado de muitas pessoas, costumes e histórias. Uma pequena mudança em um minuto de nossas vidas poderia nos dar uma realidade completamente diferente da que temos no momento, pois uma pequena alteração nas condições iniciais pode significar enormes mudanças nos resultados, que não são possíveis de prever com certeza. Isso resulta nas diversas formas em que as coisas se apresentam: as diferentes espécies, formas, personalidades, climas e tudo o que podemos e não podemos ver.

E assim nos formamos como humanos, somos a sobreposição de minutos, horas e dias. E todos esses momentos são diferentes entre si e dependentes dos anteriores, refletindo no nosso físico e nosso intelecto, nas nossas emoções e caráter. Somos o que somos devido aos muitos ramos e caminhos complexos que tomamos, difíceis de definir e explicar.

Sendo assim, nos tendo em uma perspectiva como parte deste universo, questionar nosso olhar sobre o outro é iminente. Como tentar prever ou ditar o próximo caminho que o outro deve tomar sem conhecer a complexidade de seu sistema caótico chamado vida? Como não reconhecer que também trocamos influência em cada parte desses ramos uns com os outros? Por que é tão difícil olhar para dentro, se reconhecer como um encadeamento de eventos diversos, e depois olhar o outro como semelhante? Se não podemos fazer previsões perfeitas nem de ciclos que parecem bem definidos, como as chuvas, o que fazemos tentando coreografar a vida de indivíduos tão incertos quanto nós mesmos? E, pior, o que fazemos sem nos colocar no lugar do outro, não compreendendo a distância entre as nossas experiências?

A empatia é difícil porque dói. Se colocar no lugar do outro nos adiciona uma dor além da nossa. E isso pode machucar muito. Por isso, a maioria prefere encarar o outro através de um escudo de julgamento, encobrindo suas próprias falhas. E é muito mais fácil estar lá. É mais fácil não carregar um fardo. E é difícil se reconhecer semelhante na dor, nos ver como realmente somos. Porque o que realmente somos geralmente é bem menos do que queríamos ser. E, mais uma vez, isso dói. E para atenuar a dor, a descarregamos no outro, não suportando sustentar esse fardo sozinhos.

Somos pontos em pequena escala no imenso fractal caótico do universo existente, em suas diversas interpretações. E em menores escalas desses pontos, há tanto caos quanto no todo.

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Fractal: objeto geométrico que pode ser dividido em partes, cada uma das quais semelhante ao objeto original.

Esses dias eu estava assistindo a uma matéria sobre o massacre de Realengo, ocorrido em 2011. Uma tragédia, em que um atirador matou doze crianças e feriu mais de treze outras, deixando-as cegas, privadas de movimentos e com outras sequelas. O que me chamou atenção, além da brutalidade, foi um trecho em que comentavam sobre o atirador: ele sofria bullying, era isolado e passava por questões mentais. Ao comentar isso, um dos entrevistados se questionou se ele tinha alguma culpa no ocorrido, e o outro já respondeu com “nada justifica”. De fato, a morte de crianças não pode ter uma razão justa, nunca poderá. O massacre foi um ato de violência cruel e chocante. E também, de fato, muitos atiradores e criminosos têm um histórico de sofrimento e violência. E para o bullying e todas essas violências, também não há justificativas.

No TED apresentado por Sue Klebold, mãe de um dos atiradores de Columbine, ela conta um pouco sobre o problema pelo qual seu filho passava sob sua perspectiva e fala de seu engajamento nos serviços de cuidados mentais, que se iniciou após a tragédia. Em outra entrevista, ela fala sobre o que as pessoas passando por estes problemas sentem, sempre pensando em vingar suas dores, sempre achando que o mundo será melhor sem elas.

Cada ato de cada pessoa reflete no todo, em ondas, em continuidade. Para o bem e para o mal. Sem maniqueísmos. Afinal, ninguém é completamente bom ou mau. Talvez, se a variável violência não fizesse parte das condições iniciais, muitos atiradores de massacres escolares não tivessem devolvido em morte as suas questões. Ou talvez o fizessem igualmente. Não sabemos, os resultados são imprevisíveis. Mas ter empatia e melhorar as condições iniciais dessa sucessão de acontecimentos talvez seja a única forma de melhorar as possibilidades de resultados. Pois nós não sabemos como cada pessoa reagirá à dor. Sue Klebold reagiu lutando em busca de cuidados para que outros adolescentes não estivessem novamente na posição em que seu filho esteve. Wellington, o atirador de Realengo, matou e feriu crianças, e depois a si mesmo. Como podemos definir como cada pessoa deveria reagir? Isso não é possível. Mas é possível pensar no que podemos oferecer, e que tipo de furacão podemos causar com nossas atitudes.

Que bater de asas você deseja oferecer para o mundo?

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