Boa intenção é algo legítimo, importante e de valor. Quando amamos alguém, seja da nossa família, amigos ou em um relacionamento, queremos fazer de tudo para deixar o outro bem, sem tormentas. E são muitos os conselhos que damos sobre as decisões que devem tomar, os auxílios que prestamos, as tarefas que facilitamos e a consolação que oferecemos. Às vezes, ficamos chateados quando vemos as pessoas falhando depois de termos conversado sobre o assunto, pois queremos ver resultados no outro. Mas em que ponto nossa prestatividade passa a ser disfuncional?

Esse artigo foi inspirado na música “Give the world your truth” da banda Hozen. Para extrair o máximo dele, com uma experiência multissensorial, recomendamos que você o leia ouvindo a música. Ela está disponível em várias plataformas, e você pode conferir aqui ou aqui.
Ser muito prestativo pode ser prejudicial para o outro. Isso não tem a ver com deixar de ser presente, a presença é o melhor que você pode oferecer a alguém. O que acontece é que dar muito de “mão beijada” pode fazer com que alguém não se torne bom em procurar por si mesmo, e a independência é o único jeito de se seguir em frente quando a “fonte seca”, quando chega o momento em que a pessoa precisa prover para si mesma. É ótimo ter para onde correr quando as coisas ficam difíceis, sem dúvidas. Ter alguém com quem se pode contar pode ser fundamental para que alguém saia de uma situação muito ruim. E eu não estou aqui para ditar a melhor forma de educar um filho ou de tratar alguém, o tema desse texto não chega a esses méritos. Desejo apenas gerar uma reflexão sobre a responsabilidade que temos quando interferimos de alguma forma na vida do outro, seja ele quem for, e sobre os limites que devemos dar a essa interferência.
“Vou dar a meu filho tudo o que eu não tive” é algo que muita gente diz. Isso pode ser muito bom ou muito ruim. Se você não teve educação escolar e financeira, incentivo ou apoio psicológico na infância e você quer oferecer a seu filho tudo isso para que ele obtenha por si mesmo seu sucesso, que sorte ele terá! Se você não teve um “sim” a cada desejo, sem muito limite, pode ser que seu filho venha a sentir o peso dos muitos “nãos” que irá receber durante a vida. E claro, os “nãos” devem ter uma razão de ser, não precisam ser gratuitos. Aprender a lidar com a frustração dá mais estabilidade emocional do que não passar por elas e ter que aprender pelo caminho mais difícil.
Às vezes, o que falta para alguém se acertar na vida é adquirir a capacidade de ir sozinho atrás do que quer, caminhar com as próprias pernas. Se deparar com as rédeas nas mãos e se questionar “o que eu faço com isso?”, e encontrar na descoberta a própria independência e sabedoria. Se você carrega o outro nas costas, provavelmente essa capacidade pode se atrofiar nele, mas sempre é tempo de recuperá-la. E sempre podemos estender a mão para que ninguém se sinta sozinho, mas também independente e capaz, sabendo e conseguindo lidar com as situações em vez de fugir delas ou engolir as dores. Fazer “secar a fonte” não é sempre um ato de descaso, pois se é para ensinar a criar a própria fonte de maneira sólida, torna-se um ato de amor, que envolve dar a autonomia em decidir, lidar com as consequências, cair e se levantar por si mesmo, coisas que não se aprendem só com doçura, mas formam uma estrutura difícil de abalar. É permitir ao outro descobrir, tentar, falhar, aprender e crescer na vida por conta própria.
Esses são exemplos não aplicados apenas ao relacionamento entre pais e filhos, e também não têm nada a ver com ser duro demais – isso causa tantos danos quanto a falta de disciplina. Nem excesso, nem escassez. Equilíbrio é tudo.
Para algumas pessoas, a ideia de ver um filho escolher um curso que não seja conhecido por oferecer uma boa remuneração no futuro parece assustadora. Esse tipo de cultura pode gerar uma certa pressão que o direcione para um caminho aparentemente mais lucrativo, mas que ele não deseja seguir. Enquanto você pode estar realizado vendo ele se formar médico/advogado/engenheiro, ele pode estar imerso em uma grande dívida emocional, distante do seu sonho de ser escritor/pintor/ator/poeta, por exemplo, e a sua expectativa é correspondida com uma frustração. Depositar no outro a tarefa de realizar seus sonhos e desejos é uma responsabilidade muito grande, portanto, pense bem nas expectativas que você cria. Você pode sonhar em ter um neto, mas seu filho pode não querer ter filhos, e você não pode responsabilizá-lo se você cria sonhos pra os outros realizarem.
Por mais experiência de vida que você tenha e lições que você carregue, você pode definir o melhor para alguém como coisas menos tangíveis, como “estar feliz, estar estável”, mas não pode limitar o caminho para isso, pois talvez “ser juiz, casar e ter filhos” não tenha felicidade como resultado para alguém como tem para você. E por mais que você visualize nesse panorama o melhor, isso é apenas um conjunto de expectativas suas, não a solução para o mundo. Ter sucesso pode ser muito mais do que o que é socialmente aclamado. Um exemplo disso é o cantor Lucas Guri, vocalista da banda Hozen, da dupla “Quarto ao lado” e do canal Casatrevo. Ele deixou o curso de Ciência da Computação, o eterno “curso do futuro” e do “mercado cheio de oportunidades e bons salários”, para cursar Música, seu sonho. Realizado e excelente no que faz, vem alcançando sucesso e, mais importante, realização por meio de suas próprias escolhas. Enquanto ponderava sobre sua decisão, ele compôs a música-tema deste artigo, que fala de expectativas, transições e de seguir o caminho que é para você. O título deste texto foi baseado no trecho que diz “Eles dizem: não vá por esse caminho, fique onde está, nós queremos apenas o melhor para você”. Na música, um dos questionamentos que ele faz é “quantas vidas você pode viver sem viver a sua própria?” e isso tem tudo a ver com deixar para trás a dívida emocional e se encontrar, não viver apenas o que os outros impõem. Quando isso é possível, o bem que você deseja ao outro pode se realizar de forma muito mais verdadeira e coerente.
Em nossas interações sociais, também acabamos nos frustrando pelas expectativas que criamos sobre os demais, e às vezes nos irritamos com um conselho que nosso amigo não segue, uma atitude que ele não toma, ou por ele não estar seguindo o plano “perfeito” de solução que criamos. De fato, lidar com pessoas é muito difícil, mas é necessário. Nos irritamos por não querer ver o sofrimento e a falha do outro, pois também projetamos nos outros muito de nós, inclusive quando queremos vê-los punidos. Pensar empaticamente facilita muito o processo, ter compaixão e entendimento de que as pessoas têm emoções, que elas precisam de cuidados, de força e de conhecimento (pois erramos muito por ignorância ou falta de um ponto de vista melhor) são alguns dos elementos que formam bons líderes e pessoas que fazem a diferença.

Portanto, reveja o que você espera do seu próximo. Permita ao outro caminhar o seu próprio caminho, contar com sua companhia e sentir suas próprias alegrias e dores. Assim como você consegue passar por muitas coisas, os outros encontrarão mecanismos sozinhos (ou com uma mãozinha), e vão conseguir também. Respeite a personalidade, os gostos, as escolhas, os erros e acertos de cada pessoa. Permita a elas mostrar sua verdade e se fortalecer e aprender com o caminho. Um pássaro que permanece em seu ninho não aprende a voar, isso ele só aprende quando é lançado de uma altura para fortalecer suas asas. Ele conta com sua família para iniciar o processo, mas no fim, ele se desenvolve porque passa a viver por si mesmo.

4 comentários em ““Eu só quero o seu bem”

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