Há algum tempo, eu assisti a um vídeo de um dos meus canais favoritos do Youtube que falava sobre os efeitos que aprender uma nova língua tem no seu cérebro. Neste vídeo, havia um comparativo entre a forma que aprendemos na infância e na fase adulta. Foi a primeira vez que ouvi sobre plasticidade cerebral. Como a maioria das coisas novas que aprendemos, esse conceito começou a aparecer com mais frequência nos textos que eu lia e nas conversas que eu tinha com minha psicóloga.

A plasticidade cerebral é a capacidade que o sistema nervoso tem de se modificar de acordo com a experiência adquirida. Como é explicado no vídeo a que me referi, crianças têm mais facilidade para aprender um idioma, pois a plasticidade cerebral permite que usem ambos os hemisférios do cérebro durante o aprendizado, enquanto a maioria dos adultos usa apenas um, geralmente o esquerdo.

Outro dia, conversando com um colega, ele discordou do que falei sobre plasticidade e disse que adultos têm mais dificuldade no aprendizado de um idioma por ter outras atividades para fazer, deixando o estudo de lado. No fim das contas, é por ambas as razões. Pode ser que a essa altura você esteja se perguntando se esse texto é sobre a melhor hora de se matricular em um curso de idiomas. Pois bem, aprender um idioma foi só um exemplo para comparar como nós adultos ficamos diferentes de quando éramos crianças. Esse é um texto sobre aprendizado. Uma reflexão sobre a perda gradativa da plasticidade cerebral, da curiosidade e entusiasmo com as descobertas decorrentes da passagem para a fase adulta.

Quando se é criança, tudo é uma fascinante parte do imenso universo que desbravamos. O feijão que germina no algodão, os planetas orbitando em torno de uma imensa bola de fogo, dinossauros ferozes que saem de cada virada de página dos livros de história para uma aventura fantástica em nossas pequeninas e ilimitadas mentes. E não é só isso, a nossa construção emocional também parece muito mais sólida quando somos pequenos. Quanto de nossa personalidade é um ramo das sementes plantadas na infância? Bastante. E também somos fruto da forma que podamos esses ramos. Então, quando a nossa criança se perdeu e se tornou aquela pessoa que meu colega mencionou: imersa em suas atividades mecânicas, perdendo o interesse em aprender?

Somos tangidos para áreas de conhecimento restritas e, tão ocupados com nossos trabalhos, não temos mais a fagulha de curiosidade que nos fazia pequenas máquinas cheias de potencial, prontas para aprender de tudo rapidamente. Não aprendemos como gerir nossas finanças, como nos alimentar bem, não sabemos lidar com os outros por nos faltar conhecimento básico sobre nossas emoções e comunicação interpessoal. Estreitando nosso escopo de conhecimento, nos questionamos constantemente sobre a serventia daquilo que aprendemos.

Sim, é importante saber sobre o movimento barroco e resolver inequações de quarto grau, mas é importante também saber sobre psicologia, sobre se adaptar a fenômenos naturais na agricultura, sobre anatomia e sobre como tomar banho nos permitiu sobreviver à varíola. Somos humanos acomodados em nossa ignorância cheia de conhecimento raso e minguado, e um triste exemplo disso é o trágico incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2 de setembro de 2018. 20 milhões de itens consumidos pelo fogo, registros de línguas já extintas, de materiais paleontológicos, antiguidades egípcias, o crânio de Luzia, o ser humano mais antigo encontrado nas Américas e muito mais. Mas esses itens não tinham preço, apenas valor. Valor esse que também não aprendemos a dar, mesmo às coisas que são raras e insubstituíveis. “Mas com certeza temos fotos e documentos sobre tudo isso”, alguns dizem, porém, registros virtuais nunca serão os signos verdadeiros da história desse universo que nos trazia brilho nos olhos com suas minúncias quando éramos crianças, porque limitamos nosso interesse e perdemos pouco a pouco a consciência sobre a vastidão do que há para aprender.

Fire Blazes At Iconic National Museum of Brazil
Retrato do descaso com a Educação e Legado histórico do país (Foto por Buda Mendes/Getty Images)

O conhecimento é revolução. Assassinamos a nossa criança quando apanhamos uma porção pouco abrangente de sabedoria para absorvermos por obrigação. Todos os dias temos nossa mente pulsando por conhecimentos, e a distraímos com atrações que nos servem de antolhos, aqueles aparatos que colocam em cavalos para que só olhem para frente, e desperdiçamos diariamente nossas competências e potencial. Alegamos falta de tempo, mas como diria Tim Ferriss, “Falta de tempo é, na verdade, falta de prioridade”.  Mudanças e realizações vêm da sede por conhecimento abrangente, buscando fragmentos em todas as áreas, sem permitir que sejamos tangidos da infinidade do que o universo oferece.

Ainda há tempo se começarmos hoje, recuperando a curiosidade definhada, insistindo em fazer descobertas, nos entusiasmando com nossos resultados, sempre desejando mais, e não permitindo que nos seja tolhida a capacidade e o ímpeto de compreender e investigar esse mundo de sabedoria disponível para ser sorvida a fartos goles. Dessa forma, conseguimos reanimar a criança que sufocamos, alimentá-la e vê-la mudar significativamente o curso de, pelo menos, a sua própria história.

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