Na postagem que nós ensinamos a ter R$1 milhão, te mostramos que há, pelo menos, um caminho a seguir e que ele é perfeitamente “caminhável” para atingir essa quantia, você apenas precisa de paciência e aportes mensais. Agora nós te mostraremos o primeiro passo desse caminho. Ensinaremos o básico do funcionamento do Tesouro Direto.

A ideia de hoje é mostrar alguns conceitos gerais por trás do Tesouro Direto: para onde vai o seu dinheiro, quais são os títulos disponíveis, se é uma aplicação segura e quais taxas e impostos estão envolvidos. Esse é apenas o primeiro de uma série de artigos que iremos abordar esse assunto.

Como falamos no nosso podcast, o Tesouro Direto é uma das maneiras de você investir no governo. A outra é através dos impostos. Ao investir via imposto, seus prêmios são, teoricamente, saúde, educação, segurança e infraestrutura. Ao investir no Tesouro, seus prêmios são os juros. Governos do mundo inteiro nunca fazem o básico da Educação Financeira, sempre gastam mais do que ganham, o dinheiro arrecadado via imposto nunca é suficiente para cobrir os gastos e, por isso, sempre pedem dinheiro emprestado. A dívida interna brasileira relatada em um documento de Novembro/2018, é de R$3.679.800.000.000,00. Para não ter que imprimir dinheiro “à toa”, afinal nenhum governo quer inflação alta, eles emitem títulos de dívida, que podem ser comprados por empresas, fundos de investimentos, pessoas físicas e até outros países.

No Brasil há duas maneiras comprar esses títulos: via Tesouro Nacional, apenas para Pessoas Jurídicas e o Tesouro Direto para Pessoas Físicas (veja a explicação aqui). O TD (irei abreviar para evitar muita repetição do termo) foi criado em 2002 com o objetivo de democratizar o acesso aos títulos públicos. Antes de sua criação, as pessoas físicas podiam investir apenas via Fundos de Investimento de bancos e outras instituições financeiras, cobrando caro pelas nas taxas de administração e requerendo altos investimentos iniciais, não sendo acessível a todos. Hoje é possível investir com apenas R$30,00 e pagar taxas de administração de apenas 0,25%.

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“Apenas” R$54 bilhões da dívida de R$3,6 trilhões é do Tesouro Direto (Relatório de Dez/2018)

Veja na imagem acima que a porcentagem da dívida no TD é muito baixa em relação à dívida total. A grande parte dos credores do governo brasileiros são planos de previdência (de bancos), Fundos de Investimentos, Instituições financeiras e não-residentes. Os dois primeiros são aqueles que cobram alto dos clientes para investir o dinheiro no TD (até 3% ao ano), enquanto você mesmo poderia fazer isso pagando taxas muito mais baixas, só precisando dedicar um pouco do seu tempo para estudar.

Resumindo: ao comprar um título do TD, você está virando credor do governo. Ele agora está te devendo dinheiro. Mas não se preocupe! O governo trata contribuinte e credor de maneira muito diferente.

Tesouro Direto é seguro?

Sim, é o investimento financeiro mais seguro do país. Não importa quem está ocupando o cargo de presidente da república, ministro da fazenda ou presidente do banco central. Esse dinheiro está garantido pelo bolso de cada um dos brasileiros vivos e dos que ainda nem nasceram e, em último caso, pelas impressoras e prensas de dinheiro da Casa da Moeda. É como emprestar dinheiro a um amigo todo enrolado em dívidas mas ele tem uma impressora de dinheiro em casa.

Só há uma maneira do governo não pagar os credores: dando calote na dívida interna. Nem a Venezuela, na situação econômica de calamidade total com uma inflação projetada de 10.000.000% para 2019, deu calote na dívida interna. Pode confiar em mim, se por acaso o governo brasileiro alguma dia der calote na dívida interna, a sua menor preocupação será com seu dinheiro no TD.

Conceitos Importantes

Antes de entrar em mais detalhes dos títulos, será necessário mostrar alguns conceitos importantes para o entendimento geral do TD. Vamos lá:

Inflação (IPCA):

A explicação completa é: O IPCA é um índice criado para medir a variação de preços do mercado para o consumidor final, e representa o índice oficial da inflação no Brasil. IPCA significa Índice de Preços ao Consumidor e é medido mês a mês pelo IBGE.

Simplificando, é a perda do poder de compra do dinheiro através do tempo. O IPCA do ano de 2018 ficou em 3,75%. Isso quer dizer que R$100,00 no dia 01/01/2018 teria o mesmo poder de compra de R$96,25 em 31/12/2018.

Como curiosidade, utilizei a calculadora do Banco Central para correção de valores pelo IPCA. Corrigi R$100,00 em Janeiro/1995 até Dezembro/2018, veja o resultado:

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São necessários R$501,81 em Dez/2018 para ter o mesmo poder de compra de R$100,00 em Jan/1995.
Taxa Selic:

É a taxa de juros equivalente à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic) para títulos federais (veja aqui).

Simplificando: é a taxa de juros mais baixa que é cobrada para adquirir dinheiro. O Banco Central tem o poder de alterar a Selic uma vez a cada 45 dias (chamadas de reuniões do COPOM). A tendência dessa taxa deve, teoricamente, sempre acompanhar o IPCA. Se o IPCA está baixo, significa que poucas pessoas estão consumindo, então é necessário diminuir o “preço do dinheiro” para que voltem a consumir e, assim, girar a economia do país. Atualmente essa taxa está em 6,5% ao ano.

Utilizando outra função da calculadora do Banco Central, corrigi R$100,00 em Janeiro/1995 até Dezembro/2018 pela Selic, veja:

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Ao corrigir R$100,00 de Jan/1995 até Dez/2018 pela Selic, você teria R$4.233,86.
Juros Reais

É quanto de juros você efetivamente ganhou em uma aplicação financeira, descontando a inflação e taxas. O Brasil tem a sexta maior taxa de juros reais do planeta, 2,65%. Essa conta não é uma simples subtração. Há ferramentas online que podem calcular para você.

A rentabilidade de um investimento quando analisada sozinha não é garantia de nada, é necessário também considerar a taxa de inflação do período. Um investimento que rendeu 10% num cenário de inflação de 8% teve juros reais menores que uma aplicação que rendeu 6% num cenário de inflação de 4%. Duvida? Veja você mesmo nesta calculadora de Juros Reais.

Imposto sobre Operações Financeiras (IOF)

Esse imposto incide em qualquer rendimento de aplicações em Renda Fixa no país. Você irá pagar esse imposto apenas se retirar o dinheiro antes de 30 dias da aplicação. Ele tem uma tabela regressiva que, dia após dia, diminui de 96% para 0%. É cobrado para desencorajar as pessoas a ficarem especulando no curtíssimo prazo em aplicações de Renda Fixa. Não há incidência desse imposto na Poupança, mas vale lembrar que ela só começa a render após 30 dias da aplicação do dinheiro.

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Tabela do IOF na Renda Fixa (Fonte: ADVFN Brasil)
Imposto de Renda (IR)

Salvo algumas exceções na Renda Fixa (LCI, LCA, Poupança e Debêntures Incentivadas), não tem como fugir dele. Também incide apenas no rendimento da aplicação, boa notícia é que ele segue uma tabela regressiva, tendo seu menor valor após 2 anos de aplicação. Veja abaixo:

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Tabela regressiva do Imposto de Renda em aplicações de Renda Fixa (Imagem: Paraná Banco)
Taxa de Custódia

Taxa anual cobrada pelas corretoras e bancos sob o montante total de dinheiro investido no TD. Muitas corretoras cobravam essas taxas até poucos anos atrás, mas devido à concorrência a grande maioria delas não cobra nada de seus clientes que investem no TD. Hoje em dia até alguns grandes bancos deixaram de cobrar. Veja a tabela de preços de custódia no site oficial do Tesouro. Se você deseja ter melhores rendimentos, sugiro escolher uma corretora que não cobre essa taxa.

Taxa de Administração

Não tem como fugir dessa, é de 0,25% ao ano (até 2018 era de 0,3%). Veja que, apesar do nome, o TD não é tão direto assim, existe um intermediário, chamado B3 (antiga BM&FBovespa). Essa taxa é cobrada semestralmente, em janeiro e julho, cada uma de 0,125% do total investido, e apenas quando ultrapassar R$30,00. Para pagar essas duas taxas (custódia e administração), os bancos e corretoras retiram o dinheiro automaticamente das contas correntes dos clientes, ou seja, os clientes devem ter saldo ou podem sofrer advertências e até suspensões do Tesouro. Não se preocupe, você receberá e-mails da corretora avisando sobre a cobrança.

O TD não tem como cobrar a taxa de custódia descontando o rendimento dos títulos, você vai ter que tirar dinheiro do bolso para pagar. Apenas no resgate (antecipado ou não) e no pagamento de juros semestrais (alguns títulos específicos) é que a taxa de administração é descontada dos rendimentos. Já o IOF e IR são sempre cobrados automaticamente pela instituição financeira no momento do resgate e pagamento de juros semestrais.

Data de Resgate

Todos os títulos do TD têm liquidez diária, ou seja, você pode resgatar o valor investido a qualquer momento. O dinheiro estará na sua corretora no dia útil seguinte ou até mesmo no mesmo dia, dependendo do horário. Porém, cada título tem uma data de vencimento, quando chegar nesta data, ele será automaticamente liquidado, e o dinheiro estará na sua conta na instituição financeira (já com os impostos descontados). Você pode identificar o ano de resgate facilmente pelo nome do título, exemplo: Tesouro Prefixado 2021, Tesouro IPCA+ 2045 e Tesouro Selic 2023. Veja a imagem dos títulos disponíveis para compra no momento em que esse artigo é escrito:

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Títulos disponíveis e suas datas de vencimento.

É muita informação, mas depois que você aprende, tudo isso vira trivial. Se você quiser acessar o mesmo conteúdo diretamente do site oficial do Tesouro Direto, clique aqui.

Entendendo cada Título

Não vou entrar em muitos detalhes hoje pois essa série de artigos irá aprofundar cada um deles em postagens minuciosas no futuro. O que quero te ensinar agora é uma visão geral dos três tipos de títulos disponíveis. Vamos ver quais estão disponíveis para investir (as taxas de rendimento podem variar várias vezes ao longo do dia):

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Títulos disponíveis no momento em que esse artigo é escrito (Veja aqui).
Tesouro Selic

O rendimento deste título é indexado à taxa Selic diária. Trata-se de um título pós-fixado, pois você não sabe qual serão os juros exatos, pois não há como saber qual será a Selic no decorrer do investimento. No caso do Tesouro Selic 2023, o dinheiro do investidor será devolvido com o juros e desconto de impostos e taxas no dia 01/02/2023. A taxa de 0,01 mostrada na tabela acima é um deságio, não é rentabilidade do título. Mantendo-o até a data de vencimento, você receberá +0,01% de rentabilidade nesse caso.

Tesouro Prefixado

Toda modalidade de investimento prefixada já dá ao investidor a rentabilidade fixa bruta exata (sem descontar impostos e taxas), normalmente ao ano, no momento do resgate. No TD, ao comprar um título Prefixado, você estará comprando um “vale R$1000,00” brutos na data de vencimento. Se você comprar frações de um título, receberá a fração correspondente. Comprando um título do Tesouro Prefixado 2021 hoje, ele terá a rentabilidade de 7,32% brutos ao ano e no dia 01/01/2021 os R$1000,00 descontados de IR e Taxa de Administração serão depositados na sua conta da corretora ou banco.

Tesouro IPCA+

Este título tem uma parte prefixada e uma parte pós-fixada. A parte pós-fixada está indexada à inflação (IPCA) do período e a prefixada à uma taxa acordada no momento do investimento. O título Tesouro IPCA+ 2024 irá render a inflação + 4,21% ao ano, e no dia 15/08/2024 o investidor terá seu dinheiro devolvido na conta da corretora ou banco com as taxas e impostos descontados. Esse título sempre irá garantir uma rentabilidade real, ou seja, acima da inflação.

Se você quiser saber mais sobre os títulos, dá uma olhada no site oficial do TD.

Na próxima postagem da série irei explicar como funciona em detalhes o Tesouro Selic. Até lá!

2 comentários em “Como funciona o Tesouro Direto – Parte 1 – Introdução

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